Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro

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Fotos: Lili Rodrigues

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, é o tema do espetáculo apresentado pela Associação Artística Nóis de Teatro. O grupo tem a carreira consolidada no teatro de periferia há 12 anos em Fortaleza, desdobrando-se em atividades socioculturais, com trabalhos nas regiões do território de paz do grande Bom Jardim, por meio de projetos artísticos, educativos e populares na sociedade.

O grupo é composto por artistas, que na sua maioria são negros, refletindo as causas e inquietações vivenciadas na periferia dentro da realidade de muitos brasileiros do Nordeste, assim como de todo o país.

Atualmente, o Nóis de Teatro tem uma programação por todo o Estado e segue viajando fora do Ceará com os espetáculos “A Granja”, “Sertão.doc”, “Quase Nada” e “Todo Camburão tem um pouco de navio negreiro” fazendo parte da agenda.

“O título parte de uma música que a banda O Rappa lançou na década de 90, bastante preocupada com a perseguição da juventude negra na periferia. Se olharmos o mapa da violência no Brasil, a grande parte atingida é a população negra. Eles conseguem fazer nessa frase uma relação forte com os navios negreiros na época da escravidão. O espetáculo traz uma reflexão muito forte de dizer e de questionar-se a respeito da escravidão que não passou. Os negros continuam sendo perseguidos, violentados diariamente e, em especial, a juventude negra da periferia, que continua sendo assassinada e criminalizada todo dia”, diz Altemar di Monteiro, responsável pela coordenação geral.

DSC_0532Dia 4 de dezembro de 2014 foi a estreia do espetáculo na Praça da Gentilândia, na Avenida 13 de Maio, bairro Benfica. O local estratégico já é bem utilizado pelo grupo nas apresentações pelos bairros da grande Fortaleza. A função do Nóis de Teatro é promover uma conversa realista nas experiências do cotidiano, atravessadas por muitos cidadãos que consentem os impositivos, distanciando as classes em vez de uni-las, transformando as diferenças em igualdades, quando deveriam ser respeitadas na sua liberdade de expressão. O Brasil estampa a imagem do país de todas as nações, pátria da liberdade, mas encontramos completamente o oposto ao ver os quadros de injustiça nos rostos dos pais de famílias. 

Todos os dias os telejornais informam as diferenças sociais, a pirâmide das classes que imperam em face das médias, as intolerâncias aos homossexuais, a luta por igualdades, melhores salários, discriminações de todos os gêneros que agridem jovens, crianças, idosos, homens e mulheres. A pressão é vista por todos os lados. Nada muda e não há inovações para evitar a discriminação. É anormal ser diferente no país que usa a camisa capitalista – ainda mais quando se é negro. O bicho pega. Só pega! O preconceito contra o negro continua intenso e fazemos de conta que não ouvimos a voz dos injustiçados. No teatro, a reprodução da realidade ajuda as vítimas a gerenciar as emoções da violência diante da discriminação. É uma forma de auxiliar no desabafo dos que estão sufocados pela ofensa moral.

_DSC0334A rua é o melhor palco de ser escutado, de ser visto e de compreender os sussurros contidos do povo. O Nóis de Teatro compreende um perfil longe do convencional entre públicos e palcos fechados no qual, muitas vezes, o desejo de atingir o alvo não acontece. A ousadia de trabalhar com o teatro de periferia faz surgir o ‘Novo’ que não é ‘Novo’. É a herança do teatro de tempos atrás que viveu seus duros dias de repressões e preconceitos.

O nosso trabalho na rua dialoga com um público independente da formalidade de ir ao teatro. Acreditamos que a ocupação do espaço público é necessária para intervir, ocupando-os com a arte e a cultura, em especial, nas comunidades de periferia. É fazendo esse teatro de rua que chegaremos ao nosso objetivo”, esclarece Altemar di Monteiro.

O grupo esteve em cartaz até o dia 6 de dezembro no horário das 19h na Praça da Gentilândia, seguindo em janeiro às regiões interioranas do Ceará e do Maranhão. A companhia pode ser vista nas páginas da internet com o endereço facebook.com/NoisdeTeatro e no blog noisdeteatro.blogspot.com.br. Enquanto isso, o repertório nas discussões (que levam aos questionamentos da nação brasileira) continuam.

11219059_536702383147475_4434980115997658297_n Por: Lima Sousa/ Edição: Lima S./ Revisão: Janaina Gonçalves/ Fotógrafa: Lili Rodrigues/ Local: Praça da Gentilândia/ Agradecimentos: Altemar di Monteiro.

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