Sete perguntas para Walter Rodrigues

“O ‘encantamento’ está na maneira como você projeta o lugar onde vive através dos seus produtos, sem ser folclórico ou clichê”.

Por: Lima Sousa |Fotos: divulgação

status quo da moda encontra-se em estado de saturação. Tal diagnóstico do colapso fashion não é dado como exclusividade para a moda brasileira, senão, por uma crise que já se alastrou aos quatro cantos do mercado do vestuário. Os moldes que se apresentam nas ruas, vitrines ou nas passarelas denunciam uma classe de profissionais (ainda presos no passado) criando as mesmas narrativas. Nem mesmo a globalização foi capaz de mudar esse quadro, pelo contrário, ela tornou mais difícil a comprovação de criações singulares, mantendo seus personagens em competitividade onde não se vê propósitos, muito menos o tão falado “encantamento”. Esse panorama é semelhante à imagem de alguém à procura de uma agulha num imenso palheiro. Assim são os dias dos grandes criadores na busca de contar histórias autênticas que não falam simplesmente de roupas, isto é, de lançar tendências ou desfiles conceituais, mas que traduzam “pessoas” no seu contexto atual, sem ser caricato.

Na busca pelo “encantamento”, o edifício da moda segue apostando também nas novas tecnologias disponíveis no mercado. No exterior, o fenômeno da Inteligência Artificial já está sendo adotado por grandes marcas que visam acelerar o processo de produção das coleções e buscam melhorar a experiência com o consumidor. Os robôs, antes considerados como projeto fantasioso, são os personagens que “garantem” sustentar as bases desse edifício. Em agosto de 2017, durante a São Paulo Fashion Week, a empresa de tecnologia Microsoft apresentou o totem eletrônico. A máquina tem a função de fotografar e identificar o perfil dos clientes, dando sugestões de looks que se encaixam ao estilo de cada um. No painel, a leitura precisa das roupas e a indicação de desfiles com maior chance de ser da preferência do visitante.

No entanto, nem só de Inteligência Artificial viverá a moda, mas de todo encantamento inserido em seu status. Segundo a óptica de Walter Rodrigues, estilista icônico da moda brasileira, isso se resume em lifestyle e storytelling.  Ele afirma: “o ‘encantamento’ está na maneira como você projeta o lugar onde vive através dos seus produtos, sem ser folclórico ou clichê”. A dica valiosa foi dada durante uma palestra na capital cearense, levando o público à reflexão do novo processo de criação. Daqui por diante, a ‘customização da identidade’ (subjetividade) é a principal referência a ser tomada por toda a classe da moda. Em sete perguntas para Walter Rodrigues, você vai saber para ‘quem criar’ e saber ‘quem é o seu cliente’. Abaixo, a entrevista com quem entende do assunto. Fique atento!

P.M.A. – Segundo o site ‘SENAC Moda Informação’, você disse que “falta no brasileiro conteúdo, pois isto é o que gera encantamento”. Especificamente, quais seriam esses conteúdos de que você está falando? 

Walter R. Vários! Temos uma necessidade imensa de olhar para a vitrine dos outros, e como empresários, temos o hábito de ver o que o vizinho está fazendo, ou seja, não temos conteúdo próprio, falta em nós autoestima – esse é o grande problema do Brasil. Um país tão incrível, com regiões diversificadas e estilos de vida tão variados, podemos criar condições necessárias para nos apropriar do lifestyle que temos, transformando-o em discurso e a partir disso fazer um produto de marca com grande diferencial no mundo. Mas no final o que importa é a vitrine ‘europeia’, que não tem nada a ver com a gente, por que a realidade da Europa é o inverno. E, eles não sabem fazer ‘Verão’ porque essa estação significa ‘Férias’. Para eles, o verão não tem glamour e nenhum tipo de estrutura de roupa. E nós, como vivenciamos o calor, temos condições de criar coleções que sejam lindas, com conteúdo, storytelling e vender para fora do Brasil. Mas como ficamos presos na vitrine dos outros, terminamos fazendo a ‘cópia da cópia’ e daí ninguém quer nada. A minha crítica se refere às empresas de moda no geral. Mas há luz no fim do túnel, novos designers despontam, nas semanas de moda do Brasil, tais como Dragão Fashion e Casa de Criadores e também na SPFW, nos enchendo de esperança.

P.M.A.– Podemos dizer, então, que o regional, o meio e o verão traduzem nossos conteúdos para gerar o ‘encantamento’?

Walter R.– Eu penso que o homem é fruto do seu entorno. Sendo fruto do seu entorno, ele absolutamente sabe o que deve fazer a partir das suas dificuldades. Na realidade, o ‘encantamento’ está na maneira como você projeta o lugar onde vive através dos seus produtos, sem ser folclórico ou clichê. Nosso país tem uma força inspiradora gigante, basta olhar para o Nordeste, por exemplo, e poderíamos contar lindas histórias.

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