A fotografia imprime uma nova cara ‘aos que partiram desse mundo’

Tudo passa, mas a fotografia permanece guardando as melhores recordações dos homens. Através da imagem, conseguimos sentir as impressões emocionais que transcendem no tempo.

 

Por: Lima Sousa – Fotos: Luís Claudio

Quem poderia imaginar que a ausência das pessoas amadas pudesse ganhar uma nova versão?! Na linguagem dos sentimentos, a morte é compreendida culturalmente pelo medo que desperta nos seres humanos antes mesmo de se aproximar. Apesar de mal encarada, estampa versões peculiares que tratam de assustar a qualquer pessoa que se dê o trabalho de pensar nela. Uma das representações mais esquisitas, pra não dizer famosa, é a figura do ceifeiro de manto preto com capuz e foice na mão. Em poucos segundos, a cena é capaz de espantar a paz, do rico ao pobre, do branco ao negro, do belo ao feio, entre outros títulos.9v9a0324

Fica entendido sobre essa conversa que ninguém foi educado para lidar com a triste realidade da morte, tampouco, a cultura ocidental ensina como fazer isso da melhor maneira, – quanto mais superar a perda de um ente querido.

Mesmo contra a nossa própria vontade, cedo ou tarde, qualquer um de nós terá de viver o inevitável. Porque basta estar vivo para partir dessa vida. Não tem desculpas. Pior, não tem escapatória. A hora chega para todos. Somos surpreendidos constantemente pela sua ação repentina que acomete um pai de família acidentalmente, o idoso que foi atropelado na avenida, a mulher que sofreu violência doméstica e veio a óbito, e, em outros casos, quando decide ser menos violenta, a ‘morte natural’ não ficou para muitos; isso porque ela não avisa o dia, nem a data, e muito menos o horário de chegada. Quem tem ânsia de viver que viva o ‘agora’! A morte não se comove a rogativas.1

Por esse motivo, a fotografia assume uma tarefa ímpar na história de pessoas que mantêm o hábito de fazer o álbum de fotos, de preferência, – o álbum de família. Nessa hora ninguém quer deixar passar nada em branco, nem mesmo o choro do neném ao nascer durante o parto. Tudo vira um motivo pra fazer aquela foto ficar “top”. Pra isso, o Photoshop (Lightroon) dá uma mãozinha na hora de caprichar na imagem. O programa é um forte aliado dos profissionais da fotografia quando decidem fazer reparos, edições e até manipulações.

Já é possível com o auxílio do aplicativo projetar a imagem de falecidos nas fotografias. Como assim? Por meio das técnicas de projeção em que a imagem de pessoas falecidas ganha efeito realista nas fotos.

No Ceará o primeiro fotógrafo que teve a ousadia de apostar na técnica holográfica foi Luís Claudio Anjos. Tudo aconteceu quando Glaudelice, grávida de 6 meses, cujo marido acabara de falecer, buscava um fotógrafo especializado que projetasse a imagem do seu esposo nas fotos. A procura por um profissional experiente (nas diversas técnicas holográficas) não foi tarefa fácil.9v9a0332

Ela já havia buscado mais de 30 profissionais para realizar o seu desejo e até então, nenhum deles tinha arriscado realizar o novo tipo de trabalho. Foram várias as tentativas, a essa altura ela começava a sentir que as suas esperanças estavam se esgotando. Mas, como estava decidida do que queria, e, como toda mulher, ela não desistiu facilmente. Logo, não demorou muito para que encontrasse a pessoa certa para colocar em prática a ideia que vinha alimentando fortemente. Foi quando depois de várias tentativas, Glaudelice descobre a boa notícia que Luís Claudio (designer e diretor de fotografia) iria desenvolver a sua sessão de fotos com a projeção do seu marido. Pronto, ali ela tinha encontrado a solução para enfim ver o seu desejo realizado, – Weverson ao vivo e a cores do seu lado – o álbum do casal estava garantido.

“Para mim, profissionalmente, foi um grande desafio, já que para realizar a sessão eu precisei usar diferentes tipos de técnicas, tratamento e recorte de imagens no Photoshop, iluminação cinematográfica, composição e enquadramento da fotografia, dentre outras. Quando a moça Glau enviou as imagens de seu esposo falecido, eu analisei, tratei minuciosamente no Photoshop e já fui pensando em posições para ela, que evidentemente se encaixassem. Depois de prontas, criou-se a Magia.”, diz Luís Claudio.

Primeiro ela enviou ao fotógrafo as melhores fotos de seu marido Weverson. Luís Claudio converteu as imagens para grayscale, uma espécie de escala de cinza. Elas passaram por um processo de ajuste do equilíbrio da luminosidade através dos níveis de intensidade das cores que foram ajustadas para a produção final. O resultado realçou o tom das imagens que ganharam dramaticidade, ênfase de textura e o melhor efeito de qualidade.

“A melhor sensação foi sentir que ele estava presente no momento, foi lindo”, declara Glaudelice.


Não apenas a presença do marido foi capaz de ser sentida como também foi acompanhada de gestos amorosos em sua homenagem. As imagens do casal mostram posições clássicas que brindam o primeiro beijo, a entrega de flores e o amor de ambos ao Weverson Filho, que se acolhe na barriga da mãe.

“A montagem da luz foi muito importante, seu direcionamento foi responsável por produzir uma espécie de áreas de luz, mas serviu também para definir as áreas de sombras na moça. Foi criada a sensação de textura nela para que pudesse chegar o mais próximo da foto dele projetada. Foi usada apenas uma luz contínua bem difusa, apenas de preenchimento, já que a luz do projetor já é bem dura. O clima e a atmosfera que se criaram foram perfeitas”, diz Luís Claudio.

Não fosse a sua persistência, nesse exato momento, Glaudelice seria mais uma a somar a lista dos desistentes inconformados. 9v9a0323Mas quem ama nunca desiste e a prova disso está no clima que foi criado através do uso adequado da luz, dando os efeitos reais de textura que aproximou ambos de forma como se estivessem juntos naquele momento.

O responsável pela produção realista é, sem dúvida, o fotógrafo Luís Claudio, – que tem uma lista de trabalhos relevantes somada no currículo profissional; ele usou das melhores habilidades para a definição do trabalho, que ainda não foi batizado, – senão, até agora com o título dessa matéria.

“O trabalho maior foi deixar uma homogeneidade nas cores, a temperatura de cor corrigindo a temperatura da foto clicada na hora e com a dele projetada; o restante foi suavização de tom de pele, a nuance das cores e etc. O enquadramento foi um capítulo à parte, profundidade, distância um do outro e os ângulos foram bem estudados para dar realismo nas fotografias”, conclui o fotógrafo.

O que era costume tradicional está se tornando cada vez mais obsoleto nos dias modernos. Os avanços da tecnologia digital têm mudado os rumos do mercado fotográfico, que tem dado queda nos últimos anos.

Luís Claudio Anjo e Glaudelice
Luís Claudio Anjo e Glaudelice

Hoje, num simples clique da tela do aparelho celular é possível registrar aquela reunião de negócios, o lançamento das tendências do verão ou mesmo o aniversário de um amigo especial. Quem sonhava um dia fazer sua própria selfie pelo telefone móvel? Os aparelhos celulares com o auxílio de câmera fotográfica praticamente devoraram o mercado da fotografia convencional. Mesmo assim, ainda em tempos de avanço tecnológico não falta público para manter a antiga prática. Glaudelice é o exemplo vivo de que vale a pena manter o costume de criar o álbum familiar e reviver a emoção registrada. O diferencial do álbum de sua história é que o impossível tornou-se mais que real. ‘O outro lado da vida’ encontrou uma brecha maior para se mostrar diante de seus olhos.

Revisado por: Juliana Nascimento–(Olhos de Lince)/ Agradecimentos: Studio Valne Colibri.

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