A Porta-voz da Moda Inclusiva no Brasil tem nome e sobrenome. Ela chama-se Daniela Auler.

Por: Lima Sousa – Fotos:  Rute Yumi

O slogan “A moda é para todos” se transformou nos últimos anos em uma espécie de mantra nas redes sociais, nas ruas, e, principalmente, entre alguns profissionais da moda. A frase soa o grito democrático de pessoas que buscam ver mais igualdade dentro de um universo que ostenta um padrão de beleza rigoroso e que não contempla a realidade física de muitos homens, mulheres e adolescentes. Um padrão que se estende desde a década de 60 quando surgiu a modelo Twiggy influenciando o perfil de magreza exagerado nas fotos. A modelo roubava atenção por apresentar uma silhueta reta, ter os braços e as pernas finas e manter-se abaixo do peso. Ou seja, um tipo físico fora dos padrões normais para a sociedade e que continua forte na mídia e nas passarelas.

Eis que um grito democrático se oficializa na esfera fashion pelo designer de moda italiano (naturalizado francês) Pierre Cardin ao completar a frase “A moda é para todos e não só para uma elite”. Daí em diante, a ditadura da moda começa a viver seus primeiros dias de transição para dar espaço às diferenças. O que nunca se viu nas passarelas, pessoas com algum tipo de deficiência, começa com certa frequência a fazer parte dessa rotina. A responsável pela ideia é Daniela Auler, que no ano de 2009 idealizou o primeiro concurso de Moda Inclusiva no estado de São Paulo. Finalmente, um grupo de pessoas colocadas à margem da sociedade passam a ser representadas em um mundo onde não havia lugar para elas. Um lugar mais que merecido, pois que o concurso Moda Inclusiva já está na sua 8ª edição e segue ganhando asas em territórios da Europa. Um deles foi na capital da moda, Milão, no evento “LA NORMALITÁ DELLA BELEZA”.

A próxima parada é na capital cearense, onde o tema vai reunir profissionais no primeiro ‘Seminário Moda Inclusiva 2017’. A porta-voz da Moda Inclusiva, Daniela Auler, statement no assunto, compartilha nessa entrevista a experiência sobre ‘Moda e Deficiência’ que fará parte do seu discurso nos dias do evento.

Portal Moda e Arte – O que sensibilizou você a idealizar um projeto exclusivamente para pessoas com deficiência?

Daniela Auler – São vários os motivos. Primeiramente, eu nasci em uma família de médicos e lembro que a minha infância foi brincando nos corredores de hospitais. Eu sou formada em moda e já trabalhei em diferentes áreas do Processo de Desenvolvimento de Produto e do Mercado. O projeto teve início quando estive em uma conversa com a Drª Linamara Rizzo Battistella, hoje, Secretária da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do estado de São Paulo. Ela me questionava o porquê a moda ainda não tinha criado um acesso para as pessoas com deficiência, – ela é médica fisiatra e trazia esse questionamento dentro de si. Essa reflexão foi o que me levou à Rede de Reabilitação Lucy Montoro, que é destinado à reabilitação de pessoas com deficiência. Eu queria entender de perto como era o mundo dessas pessoas e passando a conversar com elas em processo de reabilitação, descobri que o universo da moda seria ideal para resgatar a autoestima, autonomia e que tinha milhares de designers e modelagens de roupas que facilitariam a vida delas. Foi dessa forma que o estudo sobre a Moda Inclusiva começou a fazer parte da minha vida. 

P.M.A – Como você se sente sendo a ‘Porta-voz’ de um projeto que segue avançando desde o ano de 2009 e chegou na 8ª edição em 2016?

Daniela Auler – É muito emocionante! No começo foi muito desafiador porque as pessoas não entendiam o que poderia ser a Moda Inclusiva e a moda não era tão democrática como agora. Nós estamos vivendo um momento global de muitas atitudes de coletivos e a moda está à frente dessas mudanças de paradigmas e de comportamentos. É muito gratificante ver como o projeto se estabeleceu e hoje se tornou referência nacional e internacional. Com certeza é uma caminhada de muita persistência e perseverança. Ao longo desses anos já conseguimos multiplicar estudantes, profissionais e podemos observar a evolução das peças com a tecnologia na moda que vem ajudando a prevenir os problemas de saúde e o bem-estar de muitas pessoas. Isso me deixa bastante emocionada.

P.M.A – Os concursos e feiras de moda têm sido até agora um dos palcos mais importantes para a divulgação da Moda Inclusiva. Em sua opinião, você consegue visualizar o segmento livre dessa plataforma ganhar de fato as passarelas e as vitrines de lojas como uma tendência de estilo?

Daniela Auler – Sim, eu acredito! É para isso que estamos trabalhando. Tem uma frase da Drª Linamara que eu gosto muito de usar. Ela diz que “às vezes é preciso desnivelar para nivelar”. Então, o projeto da Moda Inclusiva começou especificamente para atrair a atenção das pessoas, mas a ideia é que ele esteja dentro de todas as passarelas. É um grande passo para o segmento que tem tudo a ver com sustentabilidade e já estar dentro de congressos científicos de moda e faz parte também do projeto ‘Lição de Casa’, promovido pela ‘Casa de Criadores’, entre outros. A ideia é que o conceito inclusivo seja cada vez mais discutido e como um produto esteja disponível em magazines. Hoje, já conseguimos ver as modelos com deficiência desfilando na casa de criadores, na São Paulo Fashion Week, no New York Fashion Week e outros desfiles pelo mundo. Essa crescente vem acontecendo há uns dois, três anos, e a tendência só tende a aumentar.

P.M.A – Você acredita que a Moda Inclusiva no auge das discussões será adotada no mercado da moda pelas grandes marcas?

Daniela Auler – Eu acredito por que ela tem um design universal. O que as pessoas estão começando a entender agora é que a Moda Inclusiva não foi pensada exclusivamente para pessoas com deficiência. É um segmento de moda onde todos podem usar com algumas ferramentas e adaptações que facilitam a vida da pessoa.  Ela é democrática. Por exemplo, a calça jeans, um cadeirante para usar uma calça dessas de modelagem convencional, tipo skinny, mais justinha, ele não vai conseguir colocar em si mesmo. É muito difícil para ele e, depois, tem os bolsos traseiros que geram escaras com a pressão do assento a cadeira de rodas. Agora, se você troca essa modelagem por um design bacana com zíper nas laterais vai facilitar a vida dele(a). E, para quem não está em uma cadeira de rodas 100% do seu dia também pode usar tranquilamente. É uma modelagem diferente que vai beneficiar muito a vida de um cadeirante, assim como para uma gestante ou um idoso, que não são deficientes, e terão um conforto a mais e um design diferenciado. Isso é legal, porque essas grandes marcas irão agregar um público específico. Nós estamos falando de 45,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no Brasil. É um público emergente que vem atuando socialmente e que são consumidores. Eu acredito que as marcas vão começar a ver com esses olhos.

P.M.A – O que está faltando para a Moda Inclusiva ampliar o seu mercado na moda?

Daniela Auler – Primeiramente, tá faltando às pessoas entender que este segmento não se trata apenas de uma roupa customizada e que atende apenas pessoas com deficiência. A Moda Inclusiva é um segmento que atende a todos os tipos de corpos. Isso ainda precisa ficar claro entre as pessoas e é justamente esse olhar que está faltando.

P.M.A – Nota-se que a moda está passando por um processo de mudança há alguns anos. Você considera que os profissionais da moda estão se adaptando positivamente às diferenças que a nova sociedade vem apresentando?

Daniela Auler – Eu acredito que sim! As novas gerações são muito fortes e conectadas com o todo a sua volta [responsabilidade social]. Todo esse movimento que a gente está vivendo sobre a sustentabilidade e que se vê falando em quase todas as áreas, a moda não poderia ficar de fora. Isso é muito interessante porque se buscarmos na história da moda, ela sempre está à frente das grandes mudanças e com o tempo veio perdendo esse pioneirismo para alguns conceitos inovadores. Agora, este cenário começa a se modificar por vários movimentos como o Fashion Revolution e os Congressos Nacionais e Internacionais falando sobre várias questões. Eu sinto que estamos num momento positivo e que as pessoas vão começar a entender cada vez mais. Eu torço para isso!

P.M.A. – Desde quando essa transição está acontecendo e por quanto tempo vai se prolongar?

Daniela Auler – Especificamente, a questão da Moda Inclusiva tem um trabalho de oito anos de atuação que começou com muitos desafios.  Creio que agora ela está sendo mais falada pela força da globalização da comunicação que reproduziu as discussões dentro das universidades, nas redes sociais e na mídia. Em virtude disso, o tempo para que o segmento inclusivo viesse acontecer foi mais rápido. Em questão de prever datas, eu sou muito positiva, tipo muito Poliana, mas logo estaremos vendo outras marcas oferecendo essa tendência inclusiva para o público. 

P.M.A – O país enfrenta um momento de recessão econômica e as pesquisas recentes apontam o desemprego como uma das maiores preocupações entre os brasileiros. A minha pergunta é a seguinte: O mercado da moda está preparado para adotar um novo segmento como a Moda Inclusiva?

Daniela Auler – Sim! O país está se preparando para essa realidade e o segmento inclusivo entra totalmente dentro desse novo processo que estamos passando. Hoje já existem marcas especializadas de Moda Inclusiva no mercado. Eu vejo esse momento gerando uma nova ressignificação de produto e na forma do consumidor fazer suas escolhas na hora da compra.

P.M.A – A Moda Inclusiva contempla outros aspectos de natureza subjetiva que vão além das soluções funcionais do dia a dia?

Daniela Auler – Totalmente, porque quando se fala em Moda Inclusiva estamos pensando numa moda diferente do padrão que a gente vem vivendo há muitos anos. Nela, entra tudo o que está fora do padrão como a moda sem gênero, a Moda Plus Size e outros segmentos. Além de trazer consigo não apenas a funcionalidade do produto, mas também um fator social que resgata talentos e a autoestima de mães e mulheres da sociedade que não estavam inseridas no mercado tradicional, tornando as colaboradoras de grande valia para a construção da moda inclusiva em todo seu processo, isso também é Moda Inclusiva.

P.M.A – Existe alguma experiência marcante que transformou a sua forma de ver o mundo trabalhando com o Moda Inclusiva?

Daniela Auler – Milhares, milhares e milhares! [Risos]. A primeira foi quando eu comecei a fazer o estudo na rede de reabilitação e tinha uma menina de aproximadamente uns 12 anos que não queria participar das terapias porque não conseguia se vestir sozinha. Ela não conseguia nem colocar a própria calcinha e dependia de outra pessoa para vesti-la. Foi quando eu e uma terapeuta ocupacional criamos uma calcinha com velcro e ela passou a se vestir sozinha. Saber que você pode transformar uma vida ao ponto de ouvir essa pessoa falar “– Nossa, eu consigo me vestir sozinha! Agora eu não preciso de ninguém. Eu vou tomar meu banho e fazer a minha terapia mais feliz!”, é muito emocionante. Fora os e-mails que recebemos das pessoas que desfilaram e depois voltam para casa com o olhar diferente. Elas passaram a enxergar no espelho que são bonitas e aceitaram o próprio corpo. São casos e casos de transformações e tudo isso também gera uma mudança na minha pessoa. Eu falo que fui uma Daniela antes de começar a trabalhar com Moda Inclusiva e uma Daniela depois.

Revisado por: Janaina Gonçalves (Olhos de Lince Revisão) /Agradecimentos: Studio Colibri por: Valne Colibri / Buffet Fino Sabor: Rua : J. da Penha – nº 421 – Centro/ Santa Clara Cafeteria Dragão do Mar – R. Dragão do Mar 81 – Praia de Iracema.

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