A essência de uma Lady

O ar boêmio do Mercado do Café deu lugar para um papo super descontraído ao lado de Ângela Escudeiro. A artista e escritora fala nesta entrevista dos prêmios conquistados na carreira, a recente viagem pela Europa, inclusive, o que pensa a respeito dos artistas do cenário alencarino.

Por: Lima Sousa / Fotógrafo: Anderson Rocha

Coluna: Entrevistas

A artista desta entrevista é escritora, roteirista, produtora cultural, diretora de teatro, arte-educadora, cineasta, atriz e bonequeira por excelência. É isso mesmo, atriz-bonequeira que, com muita seriedade, dá vida aos bonecos no programa “Nas Garras da Patrulha” desde 2015, na TV Diário, canal 22, juntamente com a sua equipe de bonequeiros, composta por Renato Severo, Ivanildo Pereira e Cleomir Alencar, sob a direção de Fábio Nobre e coordenação geral de Garcia Junior.

Ângela Escudeiro é uma mulher cuja natureza esbanja a classe de uma Lady, em pessoa. Tanto é que o seu perfil feminino elenca a boa postura, bons modos à mesa, a elegância nata (educada e delicada), uma make-up impecável, cabelos bem tratados, os finos óculos escuros no rosto, acessórios de bom tom e um estilo marcante. Para completar a lista, vale lembrar as unhas no vermelho habitual, por sinal de chamar a atenção, insinuando os cuidados que recebe da sua sala “Arte Lucíola”,cuja criação é em homenagem a sua mãe, Lucíola Escudeiro; porque ser Lady todo dia, meus caros (as), não é para qualquer “UMA”. De cara, essas são algumas de suas notáveis referências que expressam a persona de uma profissional versada de arte e cultura, e que, além de ser muito estimada, tem como favorita a citação: “Quando eu partir, por gentileza, joguem as minhas cinzas ao vento sobre o MAR. Para que as ondas possam o meu amor pela vida carregar. E que os peixes, algas e sereias dancem comigo a felicidade de poder a vida continuar. Talvez, quem sabe no fundo desse mesmo MAR”. A frase é de sua autoria e traduz a essência de sua própria natureza de ser: Mística. O que Ângela Escudeiro tem de sobra, desde sempre.

Senhoras e senhores, a narrativa a seguir sintetiza o percurso de uma atriz devotada à arte de fazer teatro de ator e espetáculos com os bonecos no palco cearense sem poupar sequer um pingo de humor, criatividade e no caso do programa que participa na TV Diário, muito charme nos intervalos das gravações. Mas, o que a faz digna do título “Uma Lady cearense” são os destaques de sua própria carreira que denotam trabalhos, prêmios, cargos e participações de referência no eixo artístico e cultural. Longe de fazer a ficha técnica da atriz-bonequeira, atrevo-me a (re) produzir o insumo do que ela representa para a classe dos artistas no Ceará.

Ângela Escudeiro é Graduada em Letras pela UECE, Pós-graduada em Arte e Educação pelo CEFET, tendo estudado com o professor e diretor Lauro Góes na UFRJ e participado do Grupo Tule. Integrou a oficina “Escuela Internacional de Teatro de la América Latina Y El Caribe” – (EITALC) no México, com os professores Luís de Tavira, Jean Marie Binoche (pai de Juliette Binoche) e José Sanchis Sinisterra, além de duas oficinas em Fortaleza e no Cariri com Maurice Durozier e George Bigot do “Theatre Du Soleil”, sendo escolhida por eles para dirigir a Trupe da Lua.  Tem participação em mais de 40 Festivais de Teatro e Teatro de Bonecos nacionais e internacionais, integrando eventos e festivais.

E não para por aí, porque a Lady também soma ao currículo o DRT de atriz, bonequeira, Diretora de teatro e Produtora cultural. Participou de festivais em países como: Espanha, Portugal, Suíça, Itália, Argentina, França e outros. Um insumo profissional de experiências renomadas só na primeira parte do caldo; isso porque Escudeiro também é autora de 10 livros publicados, atuou em filmes como “O Quinze”, inspirado na obra homônima de Rachel de Queiroz, com direção de Jurandir Oliveira, além de outros filmes como atriz. Enquanto “Escudeiro Produções Artísticas”, contribui fazendo produção, co-produção, produção associada, assistência de direção e preparação de elenco, alguns destes trabalhos ainda em edição.

Com vinte e quatro prêmios recebidos em várias categorias, foi fundadora e primeira presidente do SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Ceará. Foi presidente da ABTB – Ceará e membro da Academia Feminina de Letras do Ceará. Além disso, foi Comissária da CNIC – Comissão Nacional de Incentivo à Cultura – MINC, entre 2013 e 2014, e fez o programa “Algodão Doce” (TV Diário), no qual mais uma vez os bonecos assumiram a cena, animando o público infantil da cidade. Logo após, fez uma série de apresentações com esses mesmos personagens-bonecos pelas escolas públicas da capital cearense por meio da TV Diário.

Em 2016, estudou Cinema na “Casa Amarela Eusélio Oliveira” e, neste ano de 2017, estudou Roteiro cinematográfico na “Escuela Internacional de Cine Y Television” – EICTV em CUBA, bem como Roteiro de série para Televisão, em Salvador, com Julia Priolli.

Atualmente, cursa Pós–graduação em “Gestão Cultural” no “BSB – Instituto de Capacitação Business School do Brasil”, e mantém a rotina na direção da equipe de manipulação de bonecos no programa da TV em que está contratada.

A seguir, e em primeira mão, o néctar que interessa ao sabor dos mortais sobre o que pensa ‘Uma Lady’ e atriz-bonequeira. E mais, a recente viagem que fez a Europa, onde declarou ter ido apenas para tomar um cafezinho em Paris, a realização profissional, sua rotina, o que pensa sobre os impactos na educação brasileira e outras coisas mais, porém, resguardou-se de comentar a respeito do Longa-Metragem “Se Arrependimento Matasse”, ainda em ensaios, na função de atriz, com direção de Lilia Moema Santana, por não poder falar [nada] sobre a trama do filme.

Por último, “uma boa parcela” dos leitores não tem a mínima noção de quem estou falando. Porém, não se atreverão a ter nenhuma dúvida a respeito de Â.E após ler esta entrevista.

P.M.A – Hoje em dia exige-se muito do currículo de um profissional. Com relação ao currículo do artista não é diferente, tendo em vista o tempo de carreira, atuações no teatro, TV, cinema, comerciais, premiações, e outras habilidades artísticas. Diante disso, sendo uma artista cearense, como você se define ao sintetizar um rico portfólio onde atua como atriz-bonequeira, arte-educadora, diretora teatral, escritora e roteirista?

Â.E – Nossa! Mãe do céu… Olha, é interessante porque cada pessoa me percebe de uma forma diferente. Mas sempre tem essa coisa da delicadeza, isso é habitué. Eu sempre digo: eu sou aquilo que as pessoas acham que sou. Eu sou como me veem. Alguém já deve ter dito isso (risos). Mas desde pequena eu sempre pensei assim. Quando alguém dizia: Nossa! Você é tão delicada, tão suave. Eu sempre respondia: “são seus olhos”, como tinha aprendido com a minha mãe. Em tudo que a gente falava de bom ela usava essa expressão.

Então, assim, eu sou “dinâmica, ativa”, porque a única coisa que eu faço na vida é trabalhar em prol da minha arte. É cumprir com a missão que fui predestinada a realizar nesta vida. Eu me dedico a todas essas funções e todas as artes que me vêm, ou seja, todo o talento que eu puder trabalhar e que está em mim porque talento e dom é algo que não se dá, que não se empresta ou compra, você nasce com ele e desenvolve, ou não. Eu procuro desenvolver cada vez mais. Ao longo da minha vida eu sempre fui me dedicando e tentando me aperfeiçoar. Embora eu saiba que a perfeição só existe em Deus.

P.M. AE aqui não é lugar de perfeição.

Â.E – Aqui não é lugar de perfeição, porque senão, não seria este grande hospital onde todos nós viemos nos cuidar e tentar evoluir. Eu não gosto nem de dizer essa palavra,‘tentar’. É realmente evoluir no sentido de crescer espiritualmente, de se melhorar e se curar porque todos vieram com problemas para serem tratados. E que, com o tempo, a gente pode até adoecer mais, ou pode se curar, mas não totalmente.

P.M.A – O que nos diz sobre seu outro lado?

Â.E – Ah, Ângela Escudeiro quando quer descer do salto, ela desce. Mas sempre desce com classe. Eu não sou somente uma coisa. Aliás, todos nós não somos só bons ou só ruins. Nós não temos só o lado de luz, temos também, nosso lado escuro. Então, eu faço o possível para que esse lado de luz se ilumine cada vez mais. Porém, eu sei ser grosseira, e dar respostas à altura quando sou ofendida ou quando alguém tenta me passar a perna. Às vezes eu posso até ignorar, porque me sinto melhor quando ignoro. Mas, quando tenho que dar aquela resposta (x)… Ah, pode apostar que eu dou (risadas prolongadas).

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As Barras de Access, com Luiza Oliveira

A terapeuta cearense conta como utiliza a técnica que vem “Empoderando as pessoas a saberem o que já sabem”

Coluna Transcender

Por: Lima S. | Fotógrafo: Anderson Rocha

Depois das terapias integrativas como o Reiki, homeopatia, shiatsu, yoga e acupuntura, indicadas ao homem na busca pelo bem-estar, vale lembrar que a meditação continua sendo a prática mais recomendada por contribuir na vida de milhares de pessoas no mundo. Assim mesmo, todas têm a função de evitar o stress, o cansaço e a ansiedade, bem como superar o mal do século, a depressão. Sobretudo, para manter uma mente mais equilibrada e encarar a atual sociedade contemporânea. Mas recentemente são as ‘Barras de Access’ que vem transformando vidas através da expansão da Consciência Humana. Para entender como funciona a nova terapia difundida há pouco tempo no Brasil, a terapeuta Luiza Oliveira abriu as portas do seu consultório no espaço Núcleo Sol, na Cidade dos Funcionários, onde atende aos clientes com a técnica que está trazendo excelentes resultados. Principalmente quando o assunto é “empoderar as pessoas a saberem o que já sabem”. E, dependendo da terapia, ela assegura facilitar essa autonomia através das ferramentas que engloba o Access. Uma delas é o ‘MTVSS’ – Sistema de Desprendimento da Valência Terminal Molecular, – utilizado durante a sessão através de um processo verbal e corporal em casos especiais, facilitando a condição de alguns pacientes. 

Na capital, a terapeuta segue com a rotina a todo vapor desde quando começou a atender no consultório. Em pouco tempo, Luiza já administra em sua agenda um grupo de pessoas que aderiram às Barras e confirmaram melhoras no contato com a técnica. Ela é a maior prova de que é possível observar mudanças logo na primeira sessão, pois quando recebeu sua primeira sessão, que durou apenas trinta minutos, pôde sentir os efeitos positivos naquele mesmo dia; foi nesse momento, no mês de novembro de 2016, em que nasceu espontaneamente o seu desejo de aplicar na vida de outras pessoas a técnica capaz de harmonizar a mente e o corpo.

“Eu fiz a escolha de abraçar o ‘Access’ com todo o seu sistema por ter percebido a possibilidade de ampliar meus pontos de vista, limpar as crenças limitantes e deixar o meu ‘Eu verdadeiro’ se manifestar de forma simples, clara, e com mais facilidade no dia a dia”, expõe a terapeuta.

As Barras de Access 

Criada no ano de 1990, pelo norte–americano Gary Douglas, fundador do Access Consciousness, a técnica já se expandiu por 173 países e alcançou a marca de 30 mil pessoas nos últimos anos. Um número significativo no crescimento da terapia que está sendo conciliada a outros tratamentos da medicina convencional. Além disso, demarcando seu território por agir de forma excepcional na liberação dos ‘conteúdos sabotadores’ acumulados no inconsciente. De acordo com pesquisas, pelo menos 90% do comportamento humano é dirigido pelo inconsciente. Isso significa dizer também: boa parte do destino é conduzida por arquivos armazenados nessa raiz da mente, e dependendo da natureza deles – positiva ou negativa – uma série de eventos de boa ou má qualidade podem ser atraídos ao ser humano.

No consultório, a terapia dura em torno de uma hora ou trinta minutos, e acontece da seguinte forma: Luiza coloca as mãos nas Barras de Access, que são 32 pontos mapeados em volta da cabeça da pessoa; cada um deles corresponde aos diversos aspectos do comportamento humano e a maneira como a pessoa lida com eles, como: corpo, sexualidade, trabalho, dinheiro, poder, alegria, saúde e longevidade, criatividade etc. É com o leve toque dos dedos nesses pontos que as energias acumuladas no inconsciente são removidas, permitindo o acesso à verdadeira consciência. O efeito desse processo equivale a duas horas em meditação. Isso tudo porque sua ação atua diretamente na região específica da cabeça; para quem busca nas ‘terapias integrativas’ um resultado mais ativo, pode encontrar nesta técnica a solução para os diversos problemas gerados pela modernidade acelerada. Não é à toa que há quatro anos é a mais falada entre terapeutas, coachs e profissionais da saúde mental.

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Um porto seguro na hora de dar à luz

Um diálogo sobre a função da Doula para as mulheres que buscam viver o parto humanizado

 Coluna: Minha praia é 

Por: Lima S. | Fotógrafa da Entrevista: @Ana Hélia

Na sala de parto uma mulher a parir diz: Eu vou gritar simmm pro meu bebê!

Eu acredito em você. Você consegue! Você é capaz!

Mantenha a calma, relaxe, e respire fundo. Vamos lá?! Um, dois e três, isso, mais uma vez. Agora, inspira pelo nariz e expira pela boca. Muito bem. Escute, irei falar baixinho: Você está indo super bem. Concentra. Esse parto é o seu momento. Acredite em você, no seu corpo. Olha pra mim. Eu acredito em você. Você consegue! Você é capaz! Mais que uma assistente de parto, sou sua amiga, seu amparo, seu colo, ou melhor, serei seu porto seguro. Já estamos quase chegando ao fim, falta pouco para dar à luz. O bebê está a caminho. Menos uma contração. Está cada vez mais próximo. Pronto, o bebê já nasceu.

A primeira impressão é que a médica está tranquilizando a gestante em trabalho de parto, quando na verdade, a fala é de uma profissional cuja função é dedicada à assistência a mulheres grávidas. A Doula é essa mulher que acompanha o período da gestação até o momento da grávida dar à luz. Ela está comprometida com a futura mamãe assumindo o papel de amiga, conselheira, e na maior parte do tempo é o ombro que acolhe as suas emoções. Na prática, o conjunto de técnicas utilizadas pela Doula no auxílio a gestantes é conhecido como ‘doulagem’, sendo a prática mais antiga para tornar o parto o mais humanizado possível; essa experiência de cuidados que se mantém antes, durante e depois do auge, – o nascimento do bebê – procede sobre o olhar da Doula que orienta neste momento tão delicado que é dar à luz uma nova vida! Tarefa que exerce muito bem a gaúcha Yorrana Farias, que mora no Ceará desde muito cedo e se sente ‘cearense de coração’. É ela quem abre este diálogo sobre a prática do parto humanizado que remonta os valores da nossa cultura.

Na verdade eu nunca pensei na possibilidade de ser Doula. Sempre a vi como uma profissional de muita responsabilidade nas mãos. Embora não seja sua função atender o parto com as intervenções técnicas, a demanda da Doula para com a gestante é outra, e mesmo assim já encarava como uma prática muito séria que não imaginava na minha vida, expressa Yorrana Farias.

‘Parto com Amor’

Ela não cogitava a possibilidade de um dia assumir o ofício de Doula, quanto mais se via parte da equipe ‘Parto com Amor’, composta por dois médicos e duas enfermeiras obstetras, por meio da qual atende às gestantes na capital cearense. A decisão de se tornar ‘Doula’ veio após a experiência do seu próprio parto. Na época,sem muito tempo para fazer os planos de como gostaria de viver o momento mais importante de sua vida, Yorrana Farias passou com muito esforço o trabalho de parto que aconteceu espontaneamente. 

Na varanda do Vila das Artes

Já que o meu parto não foi da forma como eu queria, tomando rumos bem diferentes, então pensei como seria bacana ajudar outras mulheres a ter um parto que eu não tive. Claro, respeitando a individualidade de cada uma delas, porque toda mulher é única. E foi aí que desejei proporcionar a elas um momento mais respeitoso, que fosse mais delas e pudesse desempenhar o seu papel da melhor forma possível,comenta Yorrana F.

Embora não tenha tido seu parto da forma desejada, isso não foi um impedimento para que, cada vez mais, Yorrana tivesse o desejo de ajudar mulheres a vivenciar seus partos de maneira ativa e respeitosa. Entretanto, ela se via convidada à missão mais antiga na história dos homens, tendo que reviver as cenas de quando concebeu o primeiro filho(a). Dessa vez, na vida de outras mulheres. E,de um jeito completamente diferente. A sua função seria amparar, sentir e ouvir a muitas e muitas mulheres da capital de fortaleza. Uma delas foi a Ana Nara.

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O sensível e o cruel”

O livro de Juliano Gadelha, professor de Antropologia e Sociologia, aborda temas sobre “Aprendizagem Pelas Performances Sadomasoquistas”

Por: Lima Sousa | Fotos: Acervo

Estante Cultural

“O outro que amamos por significativo tempo pode ir voluntária e impiedosamente ou nós mesmos podemos abrir todas as portas para que ele se vá. Mas esse é o outro materialmente palpável, substância de cor, odor, textura e formas espaciais. Quando algo desse outro fica em nós, em nossas mais profundas camadas sensíveis, de maneira que essa presença sempre se atualiza por ações que sequer remetem diretamente a algo que vivemos com esse outro, é que sentimos o quão forte consiste a potência de vida dele em nós. Atualizar o outro pela lembrança triste ou pela saudade melancólica é um enfraquecimento do corpo, da vida. Mas sentir as marcas que o outro depositou em nós e que nos move a outros é a beleza da presença virtual de quem deixou de viver ao nosso lado para ser um outrem em nós”. (O sensível e o cruel, p.94-95)

Acima, um mote do livro O sensível e o cruel: uma aprendizagem pelas performances sadomasoquistas, de Juliano Gadelha, professor de Antropologia e Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE). A obra que aborda temas sobre a experimentação com as performances sadomasoquistas foi recentemente lançada na capital cearense ao lado de um público seleto do autor. Em especial, o trecho evoca em sua essência a base do ‘Sensível’ com relação ao outro que está interligado a nós, ocupando um lugar que se compõe de sentimentos a partir de uma convivência profunda e fácil de romper; Simultaneamente, a essência do ‘Cruel’ é percebida quando o outro se desliga dessa vivência. Na verdade, o ‘Cruel’ não se refere à ‘Dor ou à Saudade’. Também, não é o oposto do sensível, mas, sim, quando o sensível se mostra criador de mundos sem a lembrança do outrora vivido. 

O autor nos dá a impressão que o ‘Sensível e o Cruel’ se unem de forma poética na íntima rotina dos indivíduos. É como assistir uma cena performática de homens que se deixam subjugar pelas lembranças e outros ressignificam a ausência pela beleza depositada em si. Mas, quem afirma se essa interpretação procede é o próprio Gadelha.

“Existem situações na vida que a gente não interpreta. E os autores, autoras e os artistas com os quais trabalho e que proponho na obra dizem a todo o momento que ‘a vida é algo que nos escapa por todos os lados’. É como a frase: “O outro que amamos pode ir impiedosamente e nos abandonar ou nós podemos deixá-lo”. Mas, a força [sensível] que age em você quando outro material sai da relação é o que se carrega do outro. E os índios Tupinambá dizem que nós devoramos algo desse outro que nos potencializa. Você pode sofrer ou está feliz, mas quando a ‘presença sensível’ é forte ela continua agindo dentro do indivíduo. Ela é antropofágica, diz Gadelha   

O início

O primeiro percurso da obra de Gadelha se desenvolveu no período de um ano e seis meses no campo da observação e da escrita. Foi a partir do seu projeto voltado para as performances sadomasoquistas, na grande Metrópole de Fortaleza, que a obra começou a ganhar páginas. O seu primeiro livro é fruto da dissertação de Mestrado em Artes do programa de Pós-Graduação da UFC, sendo aprovado para publicação, pela Editora Metanoia, no mês de fevereiro de 2016 e lançado em abril de 2017 na Livraria Cultura.

Público e Obra

O exemplar configura três capítulos que exploram a cultura BDSM através do conceito que o autor chama de ‘Aprendizagem’. Gadelha apresenta a estrutura da sua obra em: “Aprendizagem 1: Sadomasoquismo como Performance e Outros Possíveis”; “Aprendizagem 2: Aprendendo a Constituir-se pelo Desejo Sadomasoquista: Escrita de Si e Poética da Existência”; “Aprendizagem 3: Cosmologias da Crueldade: O Ovo e os Prazeres, ou Uma Instalação – Performativa” e a “Aprendizagem Interminável”.

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A Rainha da Dança Contemporânea

Silvia Moura é referência no eixo da dança contemporânea com 40 anos de carreira em solo cearense. Ela fala na entrevista sobre carreira artística, processo criativo, e o novo espetáculo ‘A BEIRA DE…’

Por: Lima Sousa | Capa: Alex Costa| Fotos: Acervo pessoal

Coluna: Entrevistas

Ela é um vulcão artístico em constante ebulição nos palcos do teatro. Quando entra em erupção, incendeia a plateia ao transformar realidade em um espetáculo que desperta criatividade, narrativas e, principalmente, por levar um personagem autêntico no seu repertório. Silvia Moura tem as bases fincadas na dança contemporânea desde 1976 e guarda um magma rico de experiência. Além de bailarina, a artista cearense é também coreografa e atriz. Quando está em cena, assume performances para lá de ousadas, entre versões que expressam um pouco de tudo, inclusive, de si mesma. É dela o título ‘Rainha da Dança Contemporânea’, que desdobra no currículo produções como: “Corpo-lixo-cidade”, “Engarrafada”, “A cadeirinha e Eu”, “Anatomia das Coisas Encalhadas”, “Instalaformance II – Não Pise no Vestido”, “Instalaformance III – Tangendo Sonhos”, e outras inquietações.

Moura escreveu dias atrás que “envelhecer é saber exatamente onde está o abismo”. A diva revela uma maturidade fora do comum ao saber tirar de letra a decrepitude de sua vida, reconhecendo onde começa e termina os seus direitos e limites. A bailarina demonstra com 52 anos bem vividos que o fantasma da idade não lhe intimida, pelo contrário, só a estimula a manter o sorriso no rosto.

Na capital cearense ela tornou-se referência no eixo da dança contemporânea. Um lugar ao sol conquistado através de altos e baixos de quem decidiu, com a cara e a coragem, ser artista e viver de dança em solo nordestino. Silvia agarra-se na arte com todas as suas forças, abraçando o dom de dançar genuinamente diante das intempéries que somam a carreira do artista. O ritmo é o seu escudo de proteção contra as investidas do destino, que desafia tanto a Arte como a Realidade.

A via dupla entre “Arte e Realidade” é um percurso que poucos arriscam seguir; ou melhor, uma pequena parcela decide pagar o preço da carreira. A lista dos desistentes anônimos não é curta, a saber, mas, nos últimos anos, a Capital do Sol tem revelado uma safra afiada de estrelas nordestinas. Do Ceará às grandes metrópoles, e para o exterior, cito alguns nomes para confirmar o outro lado da moeda. Nela, está a top model Valentina, o ator Silverio Pereira, a atriz Mey Ferdinand, o poeta Bráulio Bessa – reconhecido como ativista da cultura nordestina no mundo, e Halison Cezar – o jovem aventureiro que se tornou manchete na Índia através do intercâmbio voluntário. 

Atualmente, Silvia Moura é figura conceituada entre os artistas da dança contemporânea no Ceará. Em 40 anos de carreira, ela incorpora o lado extremo do título que leva, pois o status de Rainha serve apenas para manter as formalidades. O trono onde melhor se assenta está logo ali, no chão, onde se arranja ao redor do séquito congregado sem bancar a pose. Talvez, o hábito de sentar no chão livremente revela o seu encontro com a dança na infância. Hoje, já tendo percorrido vários territórios, conhecido pessoas importantes e encarnado vários papeis no palco, lhe garantiu um lugar disputado por muita gente. Foi graças à dança que conseguiu construir a sua própria identidade, ganhando destaque no cenário das artes e da cultura local. Entretanto, encerro apenas um insumo sobre a bailarina, a mãe e a mulher que traduz o porte de ‘Rainha da Dança Contemporânea’, – sempre munida de espírito valente e simplicidade.

Silvia foi recebida na varanda da ‘Vila das Artes’ sobre a brisa da tarde aconchegante, no centro da cidade de Fortaleza. A minha entrevista mais aguardada estava prestes a começar às 15h21min, sendo concluída por volta das 17 horas quando o sol se recolhia.

P.M.AA dança já lhe permitiu incorporar vários ‘personagens’ no teatro. Mas, quem é Silvia Moura longe das cenas sem está representando nos palcos?

Silvia M.– Nos últimos anos tentei aproximar a minha dança da vida, então, não me vejo representando muitos personagens na dança e no teatro. Na verdade, na dança falo de mim, da cidade, das coisas que vivo, que enfrento, das situações que tive a oportunidade de perceber e conto as histórias de outras pessoas próximas a mim. Nesse sentido, o personagem no palco sou ‘eu mesma’, um ‘eu’ mais dilatado. Em cena, você fica um pouco maior. Não é possível ser o tempo inteiro como se é no palco, senão ninguém suporta. É muita energia desprendida.

Acredito que não sejam ‘personagens’ como na concepção da palavra. Na realidade, são partes de mim, vivências fragmentadas da Silvia de cada momento. Só construí aquilo que acho mais valoroso para ser uma artista próxima do que sou na vida. As minhas falas em cena têm uma identificação com o que vivo no dia a dia. Desde 1988, quando assinei o meu trabalho, tentei fazer essa ligação direta com a vida, e isso tira você dessa vaidade de ‘estrela’. 

Eu sou uma pessoa comum que fala com todo mundo. Não faço distinção entre as pessoas. Da mesma forma como me dirijo ao prefeito da cidade, trato um porteiro naturalmente. Aprendi assim, tratar a todos com respeito e educação. 

P.M.AViver de arte no Brasil não é sinônimo de sucesso financeiro, e muito menos para qualquer pessoa. Fico pensando no artista que enfrenta grandes desafios no cenário cearense em tempos de crise econômica. No seu caso, está difícil se manter na dança contemporânea tendo que superar as dificuldades e o preconceito por ser bailarina nordestina? Você escolheu a dança ou a dança a achou primeiro?

Silvia M. – Ambos, disse Moura. A dança me achou, mas eu também decidi ficar. Foi uma escolha cotidiana. Existem mil possibilidades de desistir, não aguentar, e desejar coisas que nunca irá possuir nessa carreira. Sempre terá algo tentando lhe desviar para outro lado. Quem vive de ‘Arte’ lida com essa faca de dois gumes. Acima do ‘bem e do mal’ chega o momento que é preciso escolher entre a vida ‘estável e instável’. Que horas você vai se dedicar a sua arte em uma jornada de trabalho que leva quase o dia inteiro? Porque o trabalho formal rouba a sua energia totalmente.

Mas, não podemos nos iludir que isso não aconteça no mundo artístico. A nossa rotina também demanda energia. Não é só entrar no palco e se apresentar. Existe o antes e o depois que lhe consome demais. Após o espetáculo, tem a produção a ser desmontada e levar para casa. Se você não dispõe de um séquito de assistentes, o jeito é assumir essa tarefa.

Em relação à questão da sobrevivência, o artista sofre quando deseja o status de médico ou de um empresário. Quando ele está no mundo informal e deseja o rótulo do meio formal. Então, aí existe um choque. Ele nunca vai ter os direitos que as pessoas desse nicho têm. Acredito que está muito distante de termos as nossas necessidades básicas asseguradas. Porém,viver de arte é uma decisão pessoal.

Ser artista é uma escolha. É muito mais que profissão. É uma forma de estar na vida, de ver, e falar do mundo. Algumas pessoas não têm esse chamado. Eu tive. E, sendo artista, posso dizer que tenho o bônus e o ônus. Nunca fui deslumbrada.

P.M.ASilvia, o artista encontra grande dificuldade de reconhecimento na sociedade brasileira. Eu lhe pergunto, você se sente valorizada como profissional no local onde conseguiu se consolidar com a ‘Dança Contemporânea’?

Silvia M. – O artista está muito mais preocupado em existir do que sobreviver. Eu acho que já tenho um reconhecimento como artista, sabe, e não discuto a questão de ser ou não profissional. Isso não faz muito sentido para mim. A diferença do profissional e o artista é que nós, os artistas, podemos balizar e estabelecer ações convenientes ao nosso trabalho. Então, nesse sentido, já que vivo e ganho dinheiro com a dança, posso dizer que sou, sim, profissional. Ainda mais agora, estando registrada na minha categoria. [Moura dá risadas]

Em seguida, perguntei o motivo de atender às exigências. Ao que ela me respondeu: “Fui obrigada ao registro por causa de um projeto de circulação nacional onde fui aprovada e exigia a documentação”.

Logo depois, falei no meio da entrevista: “Isso é maravilhoso!”.

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