Sete perguntas para Walter Rodrigues

“O ‘encantamento’ está na maneira como você projeta o lugar onde vive através dos seus produtos, sem ser folclórico ou clichê”.

Por: Lima Sousa |Fotos: divulgação

status quo da moda encontra-se em estado de saturação. Tal diagnóstico do colapso fashion não é dado como exclusividade para a moda brasileira, senão, por uma crise que já se alastrou aos quatro cantos do mercado do vestuário. Os moldes que se apresentam nas ruas, vitrines ou nas passarelas denunciam uma classe de profissionais (ainda presos no passado) criando as mesmas narrativas. Nem mesmo a globalização foi capaz de mudar esse quadro, pelo contrário, ela tornou mais difícil a comprovação de criações singulares, mantendo seus personagens em competitividade onde não se vê propósitos, muito menos o tão falado “encantamento”. Esse panorama é semelhante à imagem de alguém à procura de uma agulha num imenso palheiro. Assim são os dias dos grandes criadores na busca de contar histórias autênticas que não falam simplesmente de roupas, isto é, de lançar tendências ou desfiles conceituais, mas que traduzam “pessoas” no seu contexto atual, sem ser caricato.

Na busca pelo “encantamento”, o edifício da moda segue apostando também nas novas tecnologias disponíveis no mercado. No exterior, o fenômeno da Inteligência Artificial já está sendo adotado por grandes marcas que visam acelerar o processo de produção das coleções e buscam melhorar a experiência com o consumidor. Os robôs, antes considerados como projeto fantasioso, são os personagens que “garantem” sustentar as bases desse edifício. Em agosto de 2017, durante a São Paulo Fashion Week, a empresa de tecnologia Microsoft apresentou o totem eletrônico. A máquina tem a função de fotografar e identificar o perfil dos clientes, dando sugestões de looks que se encaixam ao estilo de cada um. No painel, a leitura precisa das roupas e a indicação de desfiles com maior chance de ser da preferência do visitante.

No entanto, nem só de Inteligência Artificial viverá a moda, mas de todo encantamento inserido em seu status. Segundo a óptica de Walter Rodrigues, estilista icônico da moda brasileira, isso se resume em lifestyle e storytelling.  Ele afirma: “o ‘encantamento’ está na maneira como você projeta o lugar onde vive através dos seus produtos, sem ser folclórico ou clichê”. A dica valiosa foi dada durante uma palestra na capital cearense, levando o público à reflexão do novo processo de criação. Daqui por diante, a ‘customização da identidade’ (subjetividade) é a principal referência a ser tomada por toda a classe da moda. Em sete perguntas para Walter Rodrigues, você vai saber para ‘quem criar’ e saber ‘quem é o seu cliente’. Abaixo, a entrevista com quem entende do assunto. Fique atento!

P.M.A. – Segundo o site ‘SENAC Moda Informação’, você disse que “falta no brasileiro conteúdo, pois isto é o que gera encantamento”. Especificamente, quais seriam esses conteúdos de que você está falando? 

Walter R. Vários! Temos uma necessidade imensa de olhar para a vitrine dos outros, e como empresários, temos o hábito de ver o que o vizinho está fazendo, ou seja, não temos conteúdo próprio, falta em nós autoestima – esse é o grande problema do Brasil. Um país tão incrível, com regiões diversificadas e estilos de vida tão variados, podemos criar condições necessárias para nos apropriar do lifestyle que temos, transformando-o em discurso e a partir disso fazer um produto de marca com grande diferencial no mundo. Mas no final o que importa é a vitrine ‘europeia’, que não tem nada a ver com a gente, por que a realidade da Europa é o inverno. E, eles não sabem fazer ‘Verão’ porque essa estação significa ‘Férias’. Para eles, o verão não tem glamour e nenhum tipo de estrutura de roupa. E nós, como vivenciamos o calor, temos condições de criar coleções que sejam lindas, com conteúdo, storytelling e vender para fora do Brasil. Mas como ficamos presos na vitrine dos outros, terminamos fazendo a ‘cópia da cópia’ e daí ninguém quer nada. A minha crítica se refere às empresas de moda no geral. Mas há luz no fim do túnel, novos designers despontam, nas semanas de moda do Brasil, tais como Dragão Fashion e Casa de Criadores e também na SPFW, nos enchendo de esperança.

P.M.A.– Podemos dizer, então, que o regional, o meio e o verão traduzem nossos conteúdos para gerar o ‘encantamento’?

Walter R.– Eu penso que o homem é fruto do seu entorno. Sendo fruto do seu entorno, ele absolutamente sabe o que deve fazer a partir das suas dificuldades. Na realidade, o ‘encantamento’ está na maneira como você projeta o lugar onde vive através dos seus produtos, sem ser folclórico ou clichê. Nosso país tem uma força inspiradora gigante, basta olhar para o Nordeste, por exemplo, e poderíamos contar lindas histórias.

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Exposição ‘Luz e Sombra’, do fotógrafo Christian Cravo revela África Monumental

“Eu quis entrar na África como um grande ambiente único e poético, onde iria ter a possibilidade de construí-la de forma que estaria mais ligada a minha necessidade de autoentendimento e contemplação…”

Por: Lima Sousa | Fotógrafo: Lucivan Moura

Capa: Foto de divulgação | Coluna: Arte-cidade

 “A fotografia tradicional ainda precisa do suporte em papel para existir. Caso contrário, é apenas uma imagem”, disse Sebastião Salgado – fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente por documentar cenas da realidade. Tal frase afirma a exposição “Luz e Sombra”, do fotógrafo Christian Cravo, que explora um cenário de imagens em preto e branco pela famosa África. Distanciado de fazer qualquer trabalho documental, Cravo imprimiu seu olhar poético, plástico e contemplativo para revelar os fragmentos de animais e paisagens pelo continente africano. Seu longo percurso ao continente, passando por Namíbia, Zâmbia, Botsuana, Quênia, Tanzânia, Congo e Uganda, resultou num rico ensaio em que é possível encontrar Luz e Sombra, Melancolia (isolamento) e a Ausência de pessoas na série de fotografias.

A exposição já percorreu instituições icônicas, sendo exibida na galeria Throckmorton Fine Art, de Nova York, (2012), no Museu Rodin Bahia, de Salvador, (2014) e no Museu Afro Brasil, de São Paulo, (2015), esta última foi premiada como a melhor exposição fotográfica do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Na sequência, ‘Luz e Sombra’ agora se encontra sobre solo cearense no Museu da Fotografia Fortaleza com 29 imagens para deleite do visitante. A mostra foi inaugurada no último dia 10 de março, comemorando um ano de funcionamento do MFF e estará disponível até o mês de Julho de 2018.

No auditório, diante de uma sala completamente lotada, o artista-fotógrafo concedeu uma palestra para o público, demonstrando serenidade e um ar de modéstia, aparentemente. Cravo fez um relato sobre sua experiência pelo continente africano e deu detalhes sobre sua notável obra, onde expõe seu olhar sensível e profundo do que ele traduziu numa África Monumental. Ao final, respondeu várias perguntas da plateia com bastante humor. Abaixo, o leitor poder conferir os melhores momentos do encontro divididos por temas.

Foco / herança estética

“Eu sempre foquei na natureza humana. Meu principal objetivo na fotografia é de fazer uma síntese visual do ser humano (isso se dava muito através de manifestações religiosas). Eu passei 20 anos da minha vida fotografando manifestações religiosas ao redor do mundo, principalmente no Brasil, Índia, e por último, foi no Haiti onde realmente encontrei um equilíbrio estético que eu vinha buscando durante décadas, antes disso. Num país oriundo de tradições africanas, conseguia me entender como pessoa, porque eu nasci na Bahia e foi onde me criei jovem, apesar de ter morado durante toda a minha adolescência na Dinamarca; a Bahia sempre foi o lugar onde ia passar minhas férias e onde ia buscar inspiração. Foi a partir daí onde eu resolvi começar a fazer fotografia. Então, toda a estética herdada pela África compôs de forma fundamental o meu trabalho ao longo de vinte anos.

Construção ideológica: a natureza fotografada em Preto e Branco

“(…) Uma das primeiras tendências que eu identifiquei, sendo de grande interesse nesse projeto, era primeiramente fotografar uma natureza não ortodoxa. Nós já estamos acostumados a ver a natureza geográfica em grandes revistas sendo abordada de forma muito técnica. Elas preferem mostrar o momento se sobrepondo à imagem, ou seja, aquilo que está na imagem se sobrepõe à maestria artística.

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Liberdade Pra Ser o Que Quiser

Bruno Olly diz que “todos podem ser o que quiserem ser, desde que se sintam livres para isso”. O fashion designer da Attofavo segue apostando em “liberdade de expressão” e fala do atual momento de transição na moda. Confira a entrevista completa.

Por: Lima Sousa/ Fotógrafo: Hugo Digenário

Coluna: Entrevistas

A arte de rua se encontra notadamente no trabalho do designer de moda Bruno Olly. O parnaibano que comanda a marca ATTOFAVO tem seu traço marcado sob o cenário urbano da cidade. É ele que tem o dom de transformar ruas, becos, avenidas, praias e prédios num verdadeiro espetáculo de moda masculina de tirar o fôlego. Desde que assumiu o posto criativo da marca, Olly tem feito da moda Agênero o seu carro-chefe. Pra quem não sabe, Agênero é o novo Unissex da década passada, e hoje, reaparece de forma mais irreverente no vestuário. A tendência, que se popularizou no mundo fashion dando a liberdade de se vestir, faz parte do seu conceito criativo que explora looks feitos para homens, mas que podem ser usados livremente por mulheres. É por isso que em terra de fashionista quem usa ATTOFAVO se destaca. Mas também provoca, e como provoca. Certamente, ninguém fica de fora porque o fashion designer usa a criatividade para todas as tribos. Sobretudo, quando aposta em inclusão e liberdade de expressão. Ele é ‘Fora do Sério’.

Para início de conversa, já tem um tempo que o designer reside na capital Fortaleza. Apesar de estar longe do seu porto seguro, a família, foi a Moda que o segurou no lugar onde muitos escolhem viver, fazer negócios e crescer profissionalmente. Neste caso, então, já estava mais que escrito nas estrelas: Bruno Olly tinha mesmo seu sucesso garantido em terras alencarinas. Bastou colocar os pés na cidade para o designer ascender no circuito fashion local. No estalar de dedos? Im-pos-sí-vel! O sucesso é uma condição que não dá saltos. Por isso, sem pular etapas, o diretor criativo da ATTOFAVO segue até hoje colocando em prática o que aprendeu com os mestres do IDEEC – Instituto de Desenvolvimento, Educação e Cultura do Ceará. Sua grande amiga, Emily Dourado que o diga. A parceira auxilia no ateliê todas as manhãs ao seu lado para dar conta do recado. E como diz o ditado: “Por trás de um grande homem, sempre tem uma grande mulher”, confirma a sua indispensável presença no trabalho em dupla. Ainda mais agora sendo sócia da marca. Dourado é suspeita pra falar, mas se depender da extrovertida e de mais um time de gente que há por trás, Olly só tende a ampliar seus horizontes. Nesse ritmo, ele já construiu um currículo de peso na carreira, tendo participações em eventos e concursos importantes da cena local. Em 2014, a coleção “Vaqueiros -um Sertão de Riqueza e Prosperidade” foi destaque no Concurso dos Novos do Dragão Fashion Brasil, em parceria com a Faculdade IDECC, juntamente com uma equipe de seis alunos representando o curso Designer de Moda. O sertão nordestino ressurgiu no Preto e Magenta sem perder seu ‘posto agreste’, – looks casuais ganharam boas doses de modernidade sob a silhueta feminina e masculina. No mesmo ano, reaparece na vitrine do Concurso Sindi Têxtil com a coleção masculina ‘O casulo do Tempo’, destilando doses de Futurismo na passarela. Em 2017, ele retorna ao posto das passarelas com a sua primeira coleção masculina “MILLENNIALS LOVE”, que marcou no evento Runnuay.  Foi a sua primeira coleção masculina autoral, na qual teve a ousadia de inserir uma transsexual no casting de modelos.

Portanto, é a palavra ‘audácia’ que melhor lhe define como profissional focado em tudo que faz, até mesmo quando está fora de cena. Olly é o tipo de designer multimídia, ou melhor, aquele que assume boa parte dos trabalhos e está conectado com tudo que diz respeito à marca. Do seu olhar, nada passa despercebido. É por isso mesmo que seu nome já ganhou notas em revistas e jornais da cidade, passando pelo crivo de personalidades de referência local, como o jornalista Diego Gregório e o apresentador Edgel Joseph.

Uma coisa é certa: todas as evidências traduzem os atributos de um profissional que revela sofisticação em tudo que faz na moda, sobretudo, para o seu público-alvo: os homens. Ainda mais agora com a loja física, inaugurada no semestre passado de 2017. O ambiente insinua a elegância da marca com o mix de urbanidade que faz lembrar a Nova York contemporânea, mas que também nos reporta para a década de 90. As araras dispostas no espaço convidam a todos para um vislumbre de peças super desejadas, desde Jaqueta Bombers, T-shirts, Croppeds masculinos, Moletons, Veludos, Transparências, Shortinhos e Macacões. E é nesse ambiente super descolado que fomos saber o DNA da marca que vem conquistando seu lugar à luz do sol. Quem conta para nós é o próprio Bruno Olly. Confira a entrevista.

 

P.M.A Existe um outro significado para a marca além do nosso exame, isto é, como você definiria o DNA de homemmulher Attofavo?

Bruno Olly – O nosso DNA se resume no homem e na mulher que buscam um estilo mais independente, livre dos padrões, classe social e principalmente de orientação sexual. Investimos no conceito de modelagens oversized e longline onde o público em geral tem a chance de se vestir com total autonomia. Por isso, quem usa a marca tem a ‘Liberdade’ de ser o que quiser; isso é vestir Attofavo.

P.M.A – ‘Liberdade de Expressão’ define bem o seu trabalho dentro da Attofavo. Nota-se sutilmente uma característica de ‘moda-manifesto’ através dos seus looks e ensaios. Uma de suas coleções abordou o tema ‘diferenças’, estampando frases, como: “A cura do preconceito é mais educação, amor e cultura”. E além de vender estilo, a marca mostra-se também preocupada com a quebra de preconceitos e manter a igualdade entre as pessoas, é isso?

Bruno OllySim, a Attofavo traz essa mensagem sutilmente nas peças. Buscamos pelo respeito às diferenças nesse mundo. Hoje em dia o mercado da moda vem se comportando completamente diferente, no sentido de que ela está apostando em tudo e em todos. Dessa forma, oferecer um produto associado a uma história, causa e um tipo de público faz toda a diferença na hora da venda. É nisso que estamos apostando, assim como outras marcas estão de olho com certa frequência, porque não se vende mais uma peça de roupa isoladamente. E tudo isso agrega valor ao produto porque no final representa um ponto importante para o nosso trabalho.

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A essência de uma Lady

O ar boêmio do Mercado do Café deu lugar para um papo super descontraído ao lado de Ângela Escudeiro. A artista e escritora fala nesta entrevista dos prêmios conquistados na carreira, a recente viagem pela Europa, inclusive, o que pensa a respeito dos artistas do cenário alencarino.

Por: Lima Sousa / Fotógrafo: Anderson Rocha

Coluna: Entrevistas

A artista desta entrevista é escritora, roteirista, produtora cultural, diretora de teatro, arte-educadora, cineasta, atriz e bonequeira por excelência. É isso mesmo, atriz-bonequeira que, com muita seriedade, dá vida aos bonecos no programa “Nas Garras da Patrulha” desde 2015, na TV Diário, canal 22, na época, convidada por Garcia Junior. Sua equipe de manipulação é formada pelos bonequeiros, Renato Severo, Ivanildo Pereira e Cleomir Alencar sob a sua responsabilidade, com direção de Fábio Nobre. 

Ângela Escudeiro é uma mulher cuja natureza esbanja a classe de uma Lady, em pessoa. Tanto é que o seu perfil feminino elenca a boa postura, bons modos à mesa, a elegância nata (educada e delicada), uma make-up impecável, cabelos bem tratados, os finos óculos escuros no rosto, acessórios de bom tom e um estilo marcante. Para completar a lista, vale lembrar as unhas no vermelho habitual, por sinal de chamar a atenção, insinuando os cuidados que recebe da sua sala “Arte Lucíola”,cuja criação é em homenagem a sua mãe, Lucíola Escudeiro; porque ser Lady todo dia, meus caros (as), não é para qualquer “UMA”. De cara, essas são algumas de suas notáveis referências que expressam a persona de uma profissional versada de arte e cultura, e que, além de ser muito estimada, tem como favorita a citação: “Quando eu partir, por gentileza, joguem as minhas cinzas ao vento sobre o MAR. Para que as ondas possam o meu amor pela vida carregar. E que os peixes, algas e sereias dancem comigo a felicidade de poder a vida continuar. Talvez, quem sabe no fundo desse mesmo MAR”. A frase é de sua autoria e traduz a essência de sua própria natureza de ser: Mística. O que Ângela Escudeiro tem de sobra, desde sempre.

Senhoras e senhores, a narrativa a seguir sintetiza o percurso de uma atriz devotada à arte de fazer teatro de ator e espetáculos com os bonecos no palco cearense sem poupar sequer um pingo de humor, criatividade e no caso do programa que participa na TV Diário, muito charme nos intervalos das gravações. Mas, o que a faz digna do título “Uma Lady cearense” são os destaques de sua própria carreira que denotam trabalhos, prêmios, cargos e participações de referência no eixo artístico e cultural. Longe de fazer a ficha técnica da atriz-bonequeira, atrevo-me a (re) produzir o insumo do que ela representa para a classe dos artistas no Ceará.

Ângela Escudeiro é Graduada em Letras pela UECE, Pós-graduada em Arte e Educação pelo CEFET, tendo estudado com o professor e diretor Lauro Góes na UFRJ e participado do Grupo Tule. Integrou a oficina “Escuela Internacional de Teatro de la América Latina Y El Caribe” – (EITALC) no México, com os professores Luís de Tavira, Jean Marie Binoche (pai de Juliette Binoche) e José Sanchis Sinisterra, além de duas oficinas em Fortaleza e no Cariri com Maurice Durozier e George Bigot do “Theatre Du Soleil”, sendo escolhida por eles para dirigir a Trupe da Lua.  Tem participação em mais de 40 Festivais de Teatro e Teatro de Bonecos nacionais e internacionais, integrando eventos e festivais.

E não para por aí, porque a Lady também soma ao currículo o DRT de atriz, bonequeira, Diretora de teatro e Produtora cultural. Participou de festivais em países como: Espanha, Portugal, Suíça, Itália, Argentina, França e outros. Um insumo profissional de experiências renomadas só na primeira parte do caldo; isso porque Escudeiro também é autora de 10 livros publicados, atuou em filmes como “O Quinze”, inspirado na obra homônima de Rachel de Queiroz, com direção de Jurandir Oliveira, além de outros filmes como atriz. Enquanto “Escudeiro Produções Artísticas”, contribui fazendo produção, co-produção, produção associada, assistência de direção e preparação de elenco, alguns destes trabalhos ainda em edição.

Com vinte e quatro prêmios recebidos em várias categorias, foi fundadora e primeira presidente do SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Ceará. Foi presidente da ABTB – Ceará e membro da Academia Feminina de Letras do Ceará. Além disso, foi Comissária da CNIC – Comissão Nacional de Incentivo à Cultura – MINC, entre 2013 e 2014, e fez o programa “Algodão Doce” (TV Diário), no qual mais uma vez os bonecos assumiram a cena, animando o público infantil da cidade. Logo após, fez uma série de apresentações com esses mesmos personagens-bonecos pelas escolas públicas da capital cearense por meio da TV Diário.

Em 2016, estudou Cinema na “Casa Amarela Eusélio Oliveira” e, neste ano de 2017, estudou Roteiro cinematográfico na “Escuela Internacional de Cine Y Television” – EICTV em CUBA, bem como Roteiro de série para Televisão, em Salvador, com Julia Priolli.

Atualmente, cursa Pós–graduação em “Gestão Cultural” no “BSB – Instituto de Capacitação Business School do Brasil”, e mantém a rotina na direção da equipe de manipulação de bonecos no programa da TV em que está contratada.

A seguir, e em primeira mão, o néctar que interessa ao sabor dos mortais sobre o que pensa ‘Uma Lady’ e atriz-bonequeira. E mais, a recente viagem que fez a Europa, onde declarou ter ido apenas para tomar um cafezinho em Paris, a realização profissional, sua rotina, o que pensa sobre os impactos na educação brasileira e outras coisas mais, porém, resguardou-se de comentar a respeito do Longa-Metragem “Se Arrependimento Matasse”, ainda em ensaios, na função de atriz, com direção de Lilia Moema Santana, por não poder falar [nada] sobre a trama do filme.

Por último, “uma boa parcela” dos leitores não tem a mínima noção de quem estou falando. Porém, não se atreverão a ter nenhuma dúvida a respeito de Â.E após ler esta entrevista.

P.M.A – Hoje em dia exige-se muito do currículo de um profissional. Com relação ao currículo do artista não é diferente, tendo em vista o tempo de carreira, atuações no teatro, TV, cinema, comerciais, premiações, e outras habilidades artísticas. Diante disso, sendo uma artista cearense, como você se define ao sintetizar um rico portfólio onde atua como atriz-bonequeira, arte-educadora, diretora teatral, escritora e roteirista?

Â.E – Nossa! Mãe do céu… Olha, é interessante porque cada pessoa me percebe de uma forma diferente. Mas sempre tem essa coisa da delicadeza, isso é habitué. Eu sempre digo: eu sou aquilo que as pessoas acham que sou. Eu sou como me veem. Alguém já deve ter dito isso (risos). Mas desde pequena eu sempre pensei assim. Quando alguém dizia: Nossa! Você é tão delicada, tão suave. Eu sempre respondia: “são seus olhos”, como tinha aprendido com a minha mãe. Em tudo que a gente falava de bom ela usava essa expressão.

Então, assim, eu sou “dinâmica, ativa”, porque a única coisa que eu faço na vida é trabalhar em prol da minha arte. É cumprir com a missão que fui predestinada a realizar nesta vida. Eu me dedico a todas essas funções e todas as artes que me vêm, ou seja, todo o talento que eu puder trabalhar e que está em mim porque talento e dom é algo que não se dá, que não se empresta ou compra, você nasce com ele e desenvolve, ou não. Eu procuro desenvolver cada vez mais. Ao longo da minha vida eu sempre fui me dedicando e tentando me aperfeiçoar. Embora eu saiba que a perfeição só existe em Deus.

P.M. AE aqui não é lugar de perfeição.

Â.E – Aqui não é lugar de perfeição, porque senão, não seria este grande hospital onde todos nós viemos nos cuidar e tentar evoluir. Eu não gosto nem de dizer essa palavra,‘tentar’. É realmente evoluir no sentido de crescer espiritualmente, de se melhorar e se curar porque todos vieram com problemas para serem tratados. E que, com o tempo, a gente pode até adoecer mais, ou pode se curar, mas não totalmente.

P.M.A – O que nos diz sobre seu outro lado?

Â.E – Ah, Ângela Escudeiro quando quer descer do salto, ela desce. Mas sempre desce com classe. Eu não sou somente uma coisa. Aliás, todos nós não somos só bons ou só ruins. Nós não temos só o lado de luz, temos também, nosso lado escuro. Então, eu faço o possível para que esse lado de luz se ilumine cada vez mais. Porém, eu sei ser grosseira, e dar respostas à altura quando sou ofendida ou quando alguém tenta me passar a perna. Às vezes eu posso até ignorar, porque me sinto melhor quando ignoro. Mas, quando tenho que dar aquela resposta (x)… Ah, pode apostar que eu dou (risadas prolongadas).

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A Rainha da Dança Contemporânea

Silvia Moura é referência no eixo da dança contemporânea com 40 anos de carreira em solo cearense. Ela fala na entrevista sobre carreira artística, processo criativo, e o novo espetáculo ‘A BEIRA DE…’

Por: Lima Sousa | Capa: Alex Costa| Fotos: Acervo pessoal

Coluna: Entrevistas

Ela é um vulcão artístico em constante ebulição nos palcos do teatro. Quando entra em erupção, incendeia a plateia ao transformar realidade em um espetáculo que desperta criatividade, narrativas e, principalmente, por levar um personagem autêntico no seu repertório. Silvia Moura tem as bases fincadas na dança contemporânea desde 1976 e guarda um magma rico de experiência. Além de bailarina, a artista cearense é também coreografa e atriz. Quando está em cena, assume performances para lá de ousadas, entre versões que expressam um pouco de tudo, inclusive, de si mesma. É dela o título ‘Rainha da Dança Contemporânea’, que desdobra no currículo produções como: “Corpo-lixo-cidade”, “Engarrafada”, “A cadeirinha e Eu”, “Anatomia das Coisas Encalhadas”, “Instalaformance II – Não Pise no Vestido”, “Instalaformance III – Tangendo Sonhos”, e outras inquietações.

Moura escreveu dias atrás que “envelhecer é saber exatamente onde está o abismo”. A diva revela uma maturidade fora do comum ao saber tirar de letra a decrepitude de sua vida, reconhecendo onde começa e termina os seus direitos e limites. A bailarina demonstra com 52 anos bem vividos que o fantasma da idade não lhe intimida, pelo contrário, só a estimula a manter o sorriso no rosto.

Na capital cearense ela tornou-se referência no eixo da dança contemporânea. Um lugar ao sol conquistado através de altos e baixos de quem decidiu, com a cara e a coragem, ser artista e viver de dança em solo nordestino. Silvia agarra-se na arte com todas as suas forças, abraçando o dom de dançar genuinamente diante das intempéries que somam a carreira do artista. O ritmo é o seu escudo de proteção contra as investidas do destino, que desafia tanto a Arte como a Realidade.

A via dupla entre “Arte e Realidade” é um percurso que poucos arriscam seguir; ou melhor, uma pequena parcela decide pagar o preço da carreira. A lista dos desistentes anônimos não é curta, a saber, mas, nos últimos anos, a Capital do Sol tem revelado uma safra afiada de estrelas nordestinas. Do Ceará às grandes metrópoles, e para o exterior, cito alguns nomes para confirmar o outro lado da moeda. Nela, está a top model Valentina, o ator Silverio Pereira, a atriz Mey Ferdinand, o poeta Bráulio Bessa – reconhecido como ativista da cultura nordestina no mundo, e Halison Cezar – o jovem aventureiro que se tornou manchete na Índia através do intercâmbio voluntário. 

Atualmente, Silvia Moura é figura conceituada entre os artistas da dança contemporânea no Ceará. Em 40 anos de carreira, ela incorpora o lado extremo do título que leva, pois o status de Rainha serve apenas para manter as formalidades. O trono onde melhor se assenta está logo ali, no chão, onde se arranja ao redor do séquito congregado sem bancar a pose. Talvez, o hábito de sentar no chão livremente revela o seu encontro com a dança na infância. Hoje, já tendo percorrido vários territórios, conhecido pessoas importantes e encarnado vários papeis no palco, lhe garantiu um lugar disputado por muita gente. Foi graças à dança que conseguiu construir a sua própria identidade, ganhando destaque no cenário das artes e da cultura local. Entretanto, encerro apenas um insumo sobre a bailarina, a mãe e a mulher que traduz o porte de ‘Rainha da Dança Contemporânea’, – sempre munida de espírito valente e simplicidade.

Silvia foi recebida na varanda da ‘Vila das Artes’ sobre a brisa da tarde aconchegante, no centro da cidade de Fortaleza. A minha entrevista mais aguardada estava prestes a começar às 15h21min, sendo concluída por volta das 17 horas quando o sol se recolhia.

P.M.AA dança já lhe permitiu incorporar vários ‘personagens’ no teatro. Mas, quem é Silvia Moura longe das cenas sem está representando nos palcos?

Silvia M.– Nos últimos anos tentei aproximar a minha dança da vida, então, não me vejo representando muitos personagens na dança e no teatro. Na verdade, na dança falo de mim, da cidade, das coisas que vivo, que enfrento, das situações que tive a oportunidade de perceber e conto as histórias de outras pessoas próximas a mim. Nesse sentido, o personagem no palco sou ‘eu mesma’, um ‘eu’ mais dilatado. Em cena, você fica um pouco maior. Não é possível ser o tempo inteiro como se é no palco, senão ninguém suporta. É muita energia desprendida.

Acredito que não sejam ‘personagens’ como na concepção da palavra. Na realidade, são partes de mim, vivências fragmentadas da Silvia de cada momento. Só construí aquilo que acho mais valoroso para ser uma artista próxima do que sou na vida. As minhas falas em cena têm uma identificação com o que vivo no dia a dia. Desde 1988, quando assinei o meu trabalho, tentei fazer essa ligação direta com a vida, e isso tira você dessa vaidade de ‘estrela’. 

Eu sou uma pessoa comum que fala com todo mundo. Não faço distinção entre as pessoas. Da mesma forma como me dirijo ao prefeito da cidade, trato um porteiro naturalmente. Aprendi assim, tratar a todos com respeito e educação. 

P.M.AViver de arte no Brasil não é sinônimo de sucesso financeiro, e muito menos para qualquer pessoa. Fico pensando no artista que enfrenta grandes desafios no cenário cearense em tempos de crise econômica. No seu caso, está difícil se manter na dança contemporânea tendo que superar as dificuldades e o preconceito por ser bailarina nordestina? Você escolheu a dança ou a dança a achou primeiro?

Silvia M. – Ambos, disse Moura. A dança me achou, mas eu também decidi ficar. Foi uma escolha cotidiana. Existem mil possibilidades de desistir, não aguentar, e desejar coisas que nunca irá possuir nessa carreira. Sempre terá algo tentando lhe desviar para outro lado. Quem vive de ‘Arte’ lida com essa faca de dois gumes. Acima do ‘bem e do mal’ chega o momento que é preciso escolher entre a vida ‘estável e instável’. Que horas você vai se dedicar a sua arte em uma jornada de trabalho que leva quase o dia inteiro? Porque o trabalho formal rouba a sua energia totalmente.

Mas, não podemos nos iludir que isso não aconteça no mundo artístico. A nossa rotina também demanda energia. Não é só entrar no palco e se apresentar. Existe o antes e o depois que lhe consome demais. Após o espetáculo, tem a produção a ser desmontada e levar para casa. Se você não dispõe de um séquito de assistentes, o jeito é assumir essa tarefa.

Em relação à questão da sobrevivência, o artista sofre quando deseja o status de médico ou de um empresário. Quando ele está no mundo informal e deseja o rótulo do meio formal. Então, aí existe um choque. Ele nunca vai ter os direitos que as pessoas desse nicho têm. Acredito que está muito distante de termos as nossas necessidades básicas asseguradas. Porém,viver de arte é uma decisão pessoal.

Ser artista é uma escolha. É muito mais que profissão. É uma forma de estar na vida, de ver, e falar do mundo. Algumas pessoas não têm esse chamado. Eu tive. E, sendo artista, posso dizer que tenho o bônus e o ônus. Nunca fui deslumbrada.

P.M.ASilvia, o artista encontra grande dificuldade de reconhecimento na sociedade brasileira. Eu lhe pergunto, você se sente valorizada como profissional no local onde conseguiu se consolidar com a ‘Dança Contemporânea’?

Silvia M. – O artista está muito mais preocupado em existir do que sobreviver. Eu acho que já tenho um reconhecimento como artista, sabe, e não discuto a questão de ser ou não profissional. Isso não faz muito sentido para mim. A diferença do profissional e o artista é que nós, os artistas, podemos balizar e estabelecer ações convenientes ao nosso trabalho. Então, nesse sentido, já que vivo e ganho dinheiro com a dança, posso dizer que sou, sim, profissional. Ainda mais agora, estando registrada na minha categoria. [Moura dá risadas]

Em seguida, perguntei o motivo de atender às exigências. Ao que ela me respondeu: “Fui obrigada ao registro por causa de um projeto de circulação nacional onde fui aprovada e exigia a documentação”.

Logo depois, falei no meio da entrevista: “Isso é maravilhoso!”.

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