A febre do universo ‘Cosplay’ ganhou lugar na vida de milhares de adolescentes espalhados pelo Brasil e inspira uma segunda identidade fictícia no comportamento dos fãs.

Por: Lima Sousa 

Fotos de entrevista: Aldair Pereira/ Fotos Cosplayers – Anderson Rocha  

É das revistas de quadrinhos mangás aos clássicos do desenho animado que ganham vida os famosos personagens fictícios no mundo Cosplay. A origem do termo em inglês origina-se da junção das palavras costume (fantasia) e roleplay (brincadeira ou interpretação).

O ato de se fantasiar não é algo exclusivamente do cosplay. Nós temos no Brasil o ‘carnaval’ como o maior festival onde as pessoas se fantasiam e ganham as ruas com os personagens de outros países ou de sua própria cultura, o que, a grosso modo, apresenta certa semelhança com a cultura cosplay,diz o psicólogo Dário Júnior.

Os cosplayers, como são chamados os jovens que se caracterizam de personagens de livros, games e séries de televisão, estão espalhados ao redor do mundo incorporando um figurino mega produzido que pode ser visto nos grandes eventos promovidos por algumas cidades do Brasil; Sana Portal moda e arte lamina 07entre eles, destacam-se os gêneros Anime Friends e AnimeCon, criados na cidade de São Paulo, e o SANA – Super Amostra Nacional de Animes, realizado na cidade de Fortaleza. A amostra que acontece duas vezes no ano é sucesso a cada edição e contou neste semestre com a grande atração da cantora japonesa Yumi Matsuzawa. Já é a segunda vez da celebridade no festival, tendo participado na última vez em julho de 2008.

De início, quando a caracterização de personagens orientais e ocidentais dava os primeiros passos por aqui, eventos como o ‘Animencontro’, em Curitiba, e ‘BH Anime 99’, na cidade de Belo Horizonte, foram os precursores do movimento Cosplay, ambos sem fins lucrativos. Graças a eles foi possível o universo dos personagens de desenhos animados fazer parte da realidade de milhares de crianças, adolescentes e jovens no Brasil.

Pelo visto, a ideia ganhou força com os eventos que são promovidos anualmente nessas cidades e trazem uma variedade de atividades ao longo da programação.  Entre elas estão presentes amostras de painéis, workshops, exibições de vídeos, campeonatos, concursos, novos talentos e sem falar nas celebridades convidadas e shows de bandas com repertório típico do universo cosplay, como Animes Song e Game Song.

Para tanto, a boa notícia dentro desse universo são as chances de ganhar dinheiro (além da mesada dos pais… rsrs) com as premiações nas edições lançadas. Sana Portal moda e arte lamina 08Com o sucesso dos canais de animes no Youtube, transformando jovens em estrelas do mundo digital, foi possível a participação dos cosplayers em concursos e competições durante os eventos, além de garantir destaque na mídia e ao mesmo tempo ganhar financeiramente com a produção dos personagens (cosmaker).

Já se imaginou sendo um personagem de Hogwarts da Escola de Magia e Bruxaria da série Harry Potter, de J. K. Rowling?  Uma segunda identidade fictícia pode até parecer fácil de encarar, mas não é tão simples como muita gente acredita. A cosplayer cearense Débora Vieira, 19 anos, confirma o difícil processo de produção da fantasia do seu personagem Poppy do League Of Legends, em tempos de preparação para o SANA. Foram necessários dez dias para a produção da roupa e acessórios da pequena ‘Guardiã do Martelo’, como é chamada sua personagem. Para Débora, a possibilidade de se caracterizar por um dia de ‘Poppy’ é mais que simplesmente gostar, é ter a sensação de viver na pele o seu lado heroína por um dia.

Por meio do personagem, o sujeito pode se dar conta dos aspectos de sua própria identidade que em determinados momentos não se consegue levar para o dia a dia. Existe também a característica da leitura e interpretação, onde o cosplay consegue lidar com aquilo que é seu, mas que está fora dele e em alguns instantes libera o seu outro lado no ato da leitura, simbolicamente. Divulgação 2Tudo começa com a identificação e a relação com esse mundo, seja ele o mangá, anime , games e etc, explica o psicólogo Dário Júnior.

Resta saber se a personalidade dos jovens vem sofrendo impacto com a cultura cospaly ou a globalização mundial influencia mais na incorporação de uma segunda identidade com o advento das redes sociais. Na realidade, buscando saber os dois lados da moeda, lanço aos leitores a seguinte pergunta: quem está sendo o grande vilão da história afinal de contas? 

Existe uma relação do cosplay com a mídia cultural e em alguns momentos você vai encontrar estudos que falam da nocividade e outros que mostram uma possibilidade de refazer uma narrativa. O cosplay vem da relação com o quadrinho do mangá e do anime e tem em si um conteúdo pedagógico; ou seja, não é que ele, em si, vai ser inimigo, mas de que forma nós podemos aliar ou problematizar o meio dos animes, dos mangás e dos cosplayers com a atividade pedagógica, diz o psicólogo Dário Júnior.

Desde sempre, a indústria cultural contribuiu na venda de um produto adaptado ao consumidor, produto esse que varia de uma simples mercadoria à reorientação do comportamento das massas, (ideologias); nesse ciclo, entre indústria cultural e produto, o consumidor torna-se o objeto alvo onde milhares de consciências são devoradas, – porque conteúdo que é bom não faz parte desse sistema condicionado a representar, reproduzir e incentivar o ‘produto’ em vez do conhecimento na vida das pessoas.

Para comprovar este fato, levo ao conhecimento dos leitores a matéria‘Pokemon Go pode matar – Um caso similar no Brasil’, do blog ‘Morte sem Tabu’, da Folha de São Paulo;  nela, o mercado dos games é destacado como uma das novas ameaças para os adolescentes.  ALD_1551 - Copia - CopiaA prova disso está na morte de Gabriel Leão de apenas 16 anos, vítima do jogo ‘Ingress’ lançado pelo Google. Confira a matéria.

Existem várias maneiras em que o cosplay pode ser utilizado para auxiliar as pessoas. Conheço a história das irmãs Sales que foram fantasiadas às ruas do Hemoce para fazer apoio à campanha “Doe Sangue, Doe vida”. Elas diziam: “Doe sangue, sejam Super como Eu Sou”. O cospaly também pode incentivar as boas ações como fazer visitas aos hospitais de crianças com câncer que acreditam que você é aquele herói. Isso cria esperança nelas, diz a cosplayer Débora Vieira.

Não restam dúvidas que o universo cosplay tem seus pontos positivos no que se refere ao estímulo do conhecimento. Como produto, seus elementos como a narrativa, leitura, interpretação, figurino, criação, personagem e identidade somam aos seguidores uma relação de autodescoberta entre si e o mundo em que vivem; sem esquecer o conteúdo que é baseado em nossas relações pessoais e auxiliam no processo de construção dos princípios da personalidade.

Revisado por: Juliana Nascimento – (Olhos de Lince) / Agradecimentos: Fotógrafos: Aldair Pereira – Impulse Comunicação/ Anderson Rocha/ Vinyle Café.