O ator Ari Areia é um espetáculo de realidade

Por: Lima Sousa – Fotos: Acervo

“O jornalismo é como se fosse um fio que liga as pessoas ao mundo”. A frase é de um autor desconhecido e se encaixa perfeitamente em um dos nomes mais destacados quando se fala em teatro, cultura e comunicação. Estou falando do jornalista Ari Areia.13907149_651858308302364_1519423705329434732_n

Ele é uma das grandes figuras da cena local, chama atenção com o seu jeito de ser e está conectado com diversos gêneros no mundo da cultura. Como se não bastasse o título que leva, no currículo do moço listam outras atuações no ramo profissional. Ari Areia tem muito pano para manga e revela sua outra versão, que pode ser apreciada nos palcos do teatro onde desdobra o ar de sua graça. Quando entra em cena, o seu estilo é do tipo que provoca, estimula, incentiva e causa diversos comentários. Sobre a margem do bom senso, alguns de seus espetáculos, como Histórias Compartilhadas e a peça Caio e Leo, foram marcadas pela censura. Sucesso de público durante o tempo que estiveram em cartaz, ambas as peças superlotaram o teatro da casa e, inclusive, Caio e Leo, que se apresentou no Rio de Janeiro e foi nota nos principais jornais da Cidade Maravilhosa.

Por conseguinte, concluindo a base desse tripé artístico, ele ainda abraça a missão de ativista no grupo GLBT do Estado do Ceará. O ator defende os direitos da diversidade sexual, o respeito às causas relacionadas à cultura, arte e cidadania na capital. Diante disso, o lema que melhor define seu repertório performático na cidade é: “Quem não luta por seus direitos não é digno de merecê-los”. A frase é antiguíssima, mas se levada ao pé da letra tem tudo a ver com o que tem buscado até hoje. Justiça!14956513_702713866550141_4809033884661872666_n

Dias atrás no seu Facebook escreveu o seguinte: “A justiça não é cega. Ela é racista e burguesa.” O jornalista deixa claro que está de olhos bem abertos para os fatos marcantes que acontecem e passam despercebidos, com frequência, na sociedade. Como vemos, não é o caso do ator que é superinteirado no que diz respeito à informação. É tanto que decidiu ser o porta-voz da diversidade sexual na capital cearense ao ter se candidatado a vereador na luta pela equidade e os direitos da classe GLBT.

Para muitos adolescentes que buscam uma referência dentro da cidade, Ari Areia conquistou a confiança de vários jovens e já é considerado um dos padrinhos do público GLBT com um número de seguidores significativo no Estado. A seguir, a entrevista exclusiva para o Portal Moda e Arte.

Portal Moda e Arte – Que perfil tem o seu trabalho como ator dentro do teatro?

Ari Areia – Eu faço teatro profissionalmente há seis anos dentro da companhia Outro Grupo de Teatro. Em comparação às minhas referências como Herê Aquino, Silverio Pereira e o grupo Bagaceira, é um tempo muito curto. Acho que ainda existe um percurso a ser trilhado para começar a definir as minhas características. A arte é algo que precisa ser da ordem do ‘espanto’. A poesia, o teatro, o cinema e a música em algum aspecto têm que despertar e deslocar algo. E isso está em construção constante. Eu ainda estou bebendo de muitas fontes. 11947640_895551490513698_6387622103260127796_nTem muitas coisas que ainda não experimentei em cena. O que me estimula nesse momento são as questões que estou atravessando. Quando eu olho para trás vejo que já trilhei um percurso consciente com aquilo que acredito ser a função da arte.  Essencialmente, me sinto feliz com o caminho que estou trilhando.

PMA Em que momento o interesse pela carreira artística influenciou a sua vida?

Ari Areia – A igreja foi o primeiro lugar onde comecei a lidar com o teatro, mas o local que eu considero ter sido uma espécie de laboratório foi a experiência no colégio, onde fui me apropriando melhor do teatro como algo que gostaria de viver. Minhas referências artísticas começaram cedo e dentro de casa. Na infância, as roupas e os sapatos do meu pai serviam a mim como representações. Na família tenho o tio Gerardo Damasceno, que é diretor, escritor e desenvolve um trabalho de cultura no bairro Pirambu. O indivíduo fantasia a partir do que ele tem próximo de si e tudo isso trouxe a mim muitas influências.

PMA – Ser ator, foi uma maneira de defender a voz da comunidade GLBT através dos personagens ou você apenas interpreta por ser a função do seu trabalho?

Ari Areia – Não existe essa determinação. O teatro é político. Independente do recorte temático que você esteja colocando, ele pode afetar as pessoas num sentido livre de haver um texto ou estar verbalizado numa cena. Você leva ao palco uma performance e a interpretação fica aberta para as pessoas. 222O público pode viajar nessa história e deslocar situações que vão além da imaginação. Na companhia discursamos as questões ligadas à população GLBT por elas nos atravessar diariamente. O Outro Grupo de Teatro não se propõe a representar a voz de um grupo, mas sim, inquietar e provocar a sociedade. Enquanto artista, isso está muito no meu dia a dia.

PMA – No monólogo Histórias Compartilhadas, que foi alvo de críticas na internet, você refletiu as dores e o sofrimento de pessoas discriminadas e impedidas de expressar a identidade sexual na sociedade. Como foi levar nas costas o peso dessa luta tão apontada para o palco e, em seguida, ter sido mal compreendido pelo público conservador?

Ari Areia – Apesar da tempestade que aconteceu na minha cabeça 11953281_903778366357677_2509401451416752337_ncom a reação das pessoas, foi um momento de muita tranquilidade, de muita consciência e de entender o que estava se passando. O discurso de ódio que houve ao espetáculo está centrado na ignorância. A crítica ao trabalho é absolutamente normal e bem-vinda, mesmo as críticas que são injustas e sem baliza. Independente disso, nós permanecemos apresentando o trabalho, marcamos novas temporadas pela cidade e fomos circulando pelo país. Isso ajudou a esfriar a imensa onda de críticas das pessoas que apontaram o espetáculo sem ao menos ter assistido.

PMA – Se você pudesse voltar atrás e recontar Histórias Compartilhadas, que objeto colocaria em cena ao invés da imagem de Cristo que, digamos assim, lhe custou a própria vida?

Ari Areia – A peça tem um contexto muito específico. É um documentário cénico e diz muito de mim como jornalista e pessoa que cresceu no ambiente religioso. As referências estéticas têm a direção de Eduardo Bruno, que junto comigo elaborou as questões acumuladas durante a minha graduação. Histórias Compartilhadas não existiria sem a imagem de Cristo. Seria outra coisa.  As inquietações que estão colocadas não são gratuitas. Não são aleatórias, e, nesse aspecto, eu não mudaria. 

PMA – O avanço da tecnologia digital permitiu ao homem romper limites e deu a ele a falsa impressão de liberdade. Eu te pergunto, você acha que as pessoas estão compreendendo melhor a diversidade sexual em tempos de redes sociais ou a questão se agravou com o advento das novas mídias?

Ari Areia – Através das redes sociais foram construídos territórios virtuais que vão além do espaço físico. É um espaço onde você faz algum tipo de relacionamento afetivo ou de pertencimento. Na década de 80 e 90, a guerra do movimento GLBT era pela busca de visibilidade. Nós queríamos ser vistos e dizer que existíamos. 14517395_10205939817089421_25674205142134145_nHoje, abrimos espaço para essa realidade. As paradas são gigantescas, já existe um parlamentar GLBT no congresso nacional, conquistamos a TV, estamos no cinema, teatro, literatura e na publicidade. Enfim, as redes virtuais ampliaram o acesso ao conhecimento e esse alcance à informação contribuiu com a queda do preconceito. Embora, também deu lugar para a discriminação.

PMAFortaleza que resiste foi o tema da sua campanha como candidato a vereador pelo partido PSOL. Em exercício do cargo, você estaria preparado para representar com unhas e dentes a classe GLBT na câmara dos vereadores?

Ari Areia – Eu acredito sinceramente que não existe o parlamentar GLBT. O parlamentar tem que legislar para a cidade. Entendendo que, enquanto o direito de uma pessoa for negado, o direito de todas as outras pessoas está sendo violado. As pessoas do grupo GLBT não estão brigando por privilégios. O que estamos brigando é pelo acesso aos direitos básicos. Quando falamos em direitos sociais, abrimos o campo para uma questão ainda mais delicada, que é a educação, saúde e emprego. Esses são os direitos constitucionais que dão condições para sobreviver. 14265058_1157552497657389_2438482154099017907_nQuando vemos deputados retirar as questões da diversidade sexual dos planos de educação, isso significa dizer que está sendo negado a essas pessoas o direito à educação. Eu acredito que teria muito a somar dentro do legislativo municipal justamente por essas questões colocadas. Um parlamentar não é uma referência temática. É errado nos acostumarmos com essa categorização de um parlamentar dos taxistas, dos enfermeiros, dos guardas municipais ou de um bairro. O parlamentar existe para a cidade e deve dominar toda a sua complexidade com uma boa assessoria e servi-la com muita seriedade.

PMA – E qual seria a principal proposta a ser executada em defesa do público GLBT, caso tivesse ganhando as eleições?

Ari Areia – Seria criar uma política pública municipal que possibilitasse a execução de uma estrutura de proteção às pessoas GLBT em situação de vulnerabilidade. O Estado deve primar pela vida das pessoas e cumprir com o seu papel de protegê-las. A rede de atenção à população GLBT além de ser quase inexistente, tem uma atuação sucateada. Temos uma coordenadoria da diversidade sexual ligada à secretária de direitos humanos e um centro de referência, mas que estão sem os recursos básicos. A prefeitura não direciona um orçamento decente para essas estruturas. Há uma série de ações em falta como equipe, psicólogo, assistente social e advogado. As travestis que trabalham no Centro da cidade estão nas ruas durante a madrugada e fora do horário comercial, e se nesse período elas sofrem algum tipo de violência, a quem vão recorrer?14484855_415571698637336_6466511781036900433_n  Elas ligam para a polícia, mas a gente sabe que a polícia é imensamente despreparada para lidar com o público GLBT. O menino que sofre agressão doméstica porque é gay e não tem como ficar em casa, ele vai procurar a quem?

PMA – O público quer saber se estar nos seus planos se candidatar nas próximas eleições e o que mais lhe motiva continuar buscando esse caminho?

Ari Areia – É uma possibilidade. Foi uma experiência muito feliz. Eu não imaginava que a repercussão da campanha chegasse a ser tão forte pelo valor que foi investido. As pessoas investem muito nesse mercado e nós não tínhamos uma envergadura financeira para ter conseguido um resultado tão bem-sucedido. Fomos cotados em todas as zonas da cidade com uma apuração de três mil votos. Isso me deixou muito feliz. Eu acredito muito no espaço que escolhi para lutar, digo isso no campo ideológico, dentro das questões e as causas às quais estou somado. Além dessa questão eleitoral, o que mais me motiva a continuar é a possibilidade do engajamento das pessoas. Esse é o verdadeiro sentido de fazer política. É despertar o interesse das pessoas a tomar a consciência da política para além dos seus processos. Precisamos descobrir esses caminhos para engajar a nova juventude dentro da política. Isso é o essencial.

PMA – Você reproduziu no seu Facebook um refrão da música da cantora Sueli Costa que diz: “Dentro de mim mora um anjo que me sufoca de amor”. Você acredita que anjos têm gênero sexual, porque, penso eu, eles são o melhor dos exemplos de que o sentimento não faz exigência de Sexo para Amar. Qual a sua opinião sobre isso?

Ari Areia – Esse refrão faz parte do espetáculo A Mão na Face, de Rafael Martins. A letra é uma delícia de ouvir. 11540902_1679014038997535_1808211966519950126_nA cada dia que passa, eu compreendo o gênero como uma questão de construção social. Você entende um indivíduo do gênero masculino por ele ter um pênis e o feminino pela vagina. Existe uma rede de características que são dadas a essas figuras a partir da designação da genitália. Quando digo que é construído socialmente é por que o indivíduo tem as suas fragilidades. Na Escócia, tradicionalmente, os homens usam o kilt (saia xadrez). É claro que a vestimenta é uma ‘casca bem fina’. Mas, profundamente falando, os papéis de gêneros são construídos socialmente e tem muita literatura que equalizam essa visão. Então, eu acho que na verdade o gênero é uma invenção imensamente frágil e o amor não tem prerrogativas. Atualmente, o sentimento que entendemos como ‘amor’ é também uma construção social, econômica e tem diversas faces.

PMA – Quero saber sobre o seu tempo de pregador na Igreja [Evangélica]. Como foi essa experiência religiosa?

Ari Areia – A minha vida até os 18 anos esteve enxertada dentro da Igreja Protestante. Tudo o que eu vivi lá dentro foram experiências constituintes. 14956513_702713866550141_4809033884661872666_nA identificação com o campo da esquerda no qual estou atuante e a minha inclinação para o mundo das artes, em especial o teatro e o gosto pela leitura, vieram dessa influência religiosa. Foi uma fase da minha vida em que pude construir muitas memórias nesse território. Eu nunca neguei essa parte da minha história. Foi uma experiência muito forte, sincera e real.

PMA – Você foi homenageado na 10ª edição do For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, no ano de 2016. Esse reconhecimento lhe motiva a continuar com a temática da pluralidade sexual em sua produção cultural, isso é fato, mas, afinal, como se diferenciar em meio a essa causa onde vários artistas já estão vestindo a mesma conversa, o mesmo dilema e o mesmo drama nos palcos?

Ari Areia – Como ator, eu não vejo uma preocupação nessa questão. As temáticas relacionadas ao público GLBT não colocam as pessoas em um mesmo campo repetitivo. Existe uma série de possibilidades dentro dessa diversidade sexual como a estética, a interpretação, a carga emocional e a abordagem. O For Rainbow é um festival que tem esse recorte, ou seja, um festival que tem essa linguagem GLBT, mas com uma temática específica. Nesse ano cheguei a participar de alguns dias do evento e pude observar que os filmes são imensamente diversificados. Não existe uma repetição na temática, na abordagem e na estética. Cada um tem a sua visão pessoal e uma interpretação dos fatos.

PMA – No livro da Bíblia, Mateus, capítulo 12:34, diz o seguinte: “A boca fala do que está cheio o coração”. O que quero saber é: Hoje, o que você guarda no coração e o que diria que valeu a pena ter feito até agora?

Ari Areia – São muitas coisas guardadas no coração. A nossa vida tem muitos aspectos familiares, pessoais, profissionais e amorosos. Para além de um otimismo infantil, a ‘esperança’ é o sentimento que nos salva de sufocar. 10470891_840734929328688_5278724687438584705_nEmbora estejamos muito suscetíveis à violência urbana e mesmo não sendo fácil viver de teatro na cidade, no país e em nenhum outro lugar do mundo, eu diria que o meu coração está cheio de esperança. Mesmo a vida não sendo fácil de viver, a gente faz aquilo que pode. A felicidade e o sucesso nunca são plenos. Eles são momentâneos. Não existe alguém que é feliz. Existe uma pessoa que está feliz. Precisamos construir momentos de felicidade entendendo que eles são passageiros. A felicidade não poderia ser percebida se não houvesse a infelicidade. Até agora, eu digo que só não valeu a pena aquilo que eu não fiz. Não adianta olhar para o passado que não valeu a pena. Então, eu acho que vale a pena viver e seguir em frente.

Revisado por: Janaina Nascimento – (Olhos de Lince) /Agradecimentos: Cafeteria 3 corações – D’yse Ferreira / Studio Colibri por: Valne Colibri/ Fotos: Acervo.