“O sensível e o cruel”

O livro de Juliano Gadelha, professor de Antropologia e Sociologia, aborda temas sobre “Aprendizagem Pelas Performances Sadomasoquistas”

Por: Lima Sousa | Fotos: Acervo

Estante Cultural

“O outro que amamos por significativo tempo pode ir voluntária e impiedosamente ou nós mesmos podemos abrir todas as portas para que ele se vá. Mas esse é o outro materialmente palpável, substância de cor, odor, textura e formas espaciais. Quando algo desse outro fica em nós, em nossas mais profundas camadas sensíveis, de maneira que essa presença sempre se atualiza por ações que sequer remetem diretamente a algo que vivemos com esse outro, é que sentimos o quão forte consiste a potência de vida dele em nós. Atualizar o outro pela lembrança triste ou pela saudade melancólica é um enfraquecimento do corpo, da vida. Mas sentir as marcas que o outro depositou em nós e que nos move a outros é a beleza da presença virtual de quem deixou de viver ao nosso lado para ser um outrem em nós”. (O sensível e o cruel, p.94-95)

Acima, um mote do livro O sensível e o cruel: uma aprendizagem pelas performances sadomasoquistas, de Juliano Gadelha, professor de Antropologia e Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE). A obra que aborda temas sobre a experimentação com as performances sadomasoquistas foi recentemente lançada na capital cearense ao lado de um público seleto do autor. Em especial, o trecho evoca em sua essência a base do ‘Sensível’ com relação ao outro que está interligado a nós, ocupando um lugar que se compõe de sentimentos a partir de uma convivência profunda e fácil de romper; Simultaneamente, a essência do ‘Cruel’ é percebida quando o outro se desliga dessa vivência. Na verdade, o ‘Cruel’ não se refere à ‘Dor ou à Saudade’. Também, não é o oposto do sensível, mas, sim, quando o sensível se mostra criador de mundos sem a lembrança do outrora vivido.

O autor nos dá a impressão que o ‘Sensível e o Cruel’ se unem de forma poética na íntima rotina dos indivíduos. É como assistir uma cena performática de homens que se deixam subjugar pelas lembranças e outros ressignificam a ausência pela beleza depositada em si. Mas, quem afirma se essa interpretação procede é o próprio Gadelha.

“Existem situações na vida que a gente não interpreta. E os autores, autoras e os artistas com os quais trabalho e que proponho na obra dizem a todo o momento que ‘a vida é algo que nos escapa por todos os lados’. É como a frase: “O outro que amamos pode ir impiedosamente e nos abandonar ou nós podemos deixá-lo”. Mas, a força [sensível] que age em você quando outro material sai da relação é o que se carrega do outro. E os índios Tupinambá dizem que nós devoramos algo desse outro que nos potencializa. Você pode sofrer ou está feliz, mas quando a ‘presença sensível’ é forte ela continua agindo dentro do indivíduo. Ela é antropofágica, diz Gadelha.

O início

O primeiro percurso da obra de Gadelha se desenvolveu no período de um ano e seis meses no campo da observação e da escrita. Foi a partir do seu projeto voltado para as performances sadomasoquistas, na grande Metrópole de Fortaleza, que a obra começou a ganhar páginas. O seu primeiro livro é fruto da dissertação de Mestrado em Artes do programa de Pós-Graduação da UFC, sendo aprovado para publicação, pela Editora Metanoia, no mês de fevereiro de 2016 e lançado em abril de 2017 na Livraria Cultura.

Público e Obra

O exemplar configura três capítulos que exploram a cultura BDSM através do conceito que o autor chama de ‘Aprendizagem’. Gadelha apresenta a estrutura da sua obra em: “Aprendizagem 1: Sadomasoquismo como Performance e Outros Possíveis”; “Aprendizagem 2: Aprendendo a Constituir-se pelo Desejo Sadomasoquista: Escrita de Si e Poética da Existência”; “Aprendizagem 3: Cosmologias da Crueldade: O Ovo e os Prazeres, ou Uma Instalação – Performativa” e a “Aprendizagem Interminável”.

“Eu mergulho no conceito de Clarice Lispector quando digo que aprender é pedagógico demais e que a aprendizagem se dá pelo sensível. Em sua obra ‘Uma Aprendizagem ou o Livro Dos Prazeres ela cria uma aprendizagem pelos prazeres. Lori, a personagem central, aprende a amar Ulisses e não a se submeter a esse amor por ele quando cria uma aprendizagem pelo prazer com a vida; tanto que ela diz: Sou aquela que tem a própria vida e também a tua vida. Eu bebi a nossa vida”. Quando ela bebe a própria vida é que esse prazer se irradia e ela cria a aprendizagem com a vida. É uma entrega que não é ao outro, mas as forças e as coisas, – eu me entrego,respiro, oxigeno, e devolvo forças com isso. E Lori torna-se parte dessas forças porque se entrega a elas. Ela vai interagindo com esse campo de forças vivas. O problema das nossas gramáticas afetivas é refletir que as pessoas que amam muito estão numa posição inferior, enquanto aquelas que odeiam estão numa posição gloriosa. nossa subjetividade está castrada, ela não está potente. Às vezes você pode se vingar e cair numa grande cilada”, diz o autor.

Público no Lançamento

Para ele, a materialidade sensível do texto busca tocar o leitor pegando conceitos filosóficos que visitam a literatura de Clarice Lispector, a filosofia nômade de Gilles Deleuze, a filosofia de Jacques Rancière, entre outros que fazem parte, digamos assim, da sua ‘Escola de Aprendizagem’ refletida na obra. A princípio, o autor deixa o público de aviso que o seu diálogo faz um mapa pelos territórios das performances S/M e BDSM no contexto artístico e cultural. 

“No Brasil, o sadomasoquismo é um tema que não é tão explorado dentro do campo artístico e das ciências. Em outros países, há muitos trabalhos produzidos em comparação com o nosso país”, diz. 

Sendo integrante ativo do universo da pesquisa, o antropólogo cearense acessa um histórico das performances sadomasoquistas das décadas de 60 e 70, quando as práticas estavam no auge e que se aproximam do formato do seu trabalho. Seu olhar de pesquisador passa pelas bordas dos movimentos vanguardistas, que repercute em uma linguagem profunda ao longo do livro, tendo em vista a estreita relação entre o saudável, o seguro e o consensual. 

“O sádico não precisa de um consenso pra quem ele vai torturar. Tanto que ele sequestra, mata, pica e não tem a preocupação se o outro vai permitir ou rejeitar, embora vários personagens sádicos se permitam à tortura. Mas, no geral, nem todos os participantes estão desejando isso. Essa é uma forma de existência psíquica e subjetiva que se diverge da minha obra. Eu trabalho a partir da lógica ‘São’ (saudável), Seguro (respeitável) e Consensual. Se pegarmos as inúmeras práticas do sadomasoquismo pelo dispositivo médico e da saúde, elas são condenáveis por levar uma série de problemas, diz o autor”. 

Estética,Realidade e Produções

Além da Aprendizagem I, II e III, que configura a estrutura do livro, o autor nos apresenta, em especial, ao público artístico, as ‘Instalações Performativas’ que o mesmo chama de “Materialidades Sensíveis”. São três instalações, a saber: A escultura ‘O Ovo dos Prazeres’, que faz referência à Cultura BDSM e às sensações pela vida. A trilha sonora ‘O Ovo Supersônico’,criada por Uirá dos Reis, evoca a ideia de peso e leveza das práticas S/M. E, a terceira Instalação, ‘O Ovo Foragido’,que o autor busca projetar no audiovisual com a participação de “atores superpotentes”, como ele diz. 

“Nessa obra, estou trabalhando com o que se conhece por Arte Conceitual. Embora, ainda haja um problema entre os artistas, digo entre “aspas”, e, o pesquisador contemporâneo de pensar sobre tudo que se produz como “texto ou algo mais concreto” seja ‘Arte Conceitual’, por ser a nossa grande referência. Sendo que, este segmento é mais [um] entre as múltiplas Artes Contemporâneas. Escrevi ‘O sensível e o cruel’ para que o leitor, ele mesmo, pudesse se ressignificar, pois quando a obra é concluída ela já não nos pertence. Ela está jogada às interpretações, diz Gadelha.

O antropólogo nos permite assistir ‘sexo e sexualidade’ em contato direto com sua abordagem sensível e estética. A propósito, tudo o que sabemos a respeito da cultura sadomasoquista, digo a maioria, é que ela explora práticas sexuais combinadas a instrumentos que arriscam a vida e causam sofrimento aos praticantes. Ou seja, somos aqueles que ainda pensamos desse universo como a órbita das autopunições, quando, de fato, na essência, essa realidade inegável é o que se confirma.

J. Gadelha

No entanto, desviando o monóculo das práticas condenáveis que inspira o nicho, Gadelha nos apresenta o outro lado da moeda que não é nova, mas que se renova no mundo moderno com o passar do tempo. A versão mais atual a conhecer é ‘O sensível e o cruel’, que nos convida a olhar o sadomasoquismo mais estético, artístico e/ou, se podemos afirmar, de ‘elegante’.

E pelo visto, a corda das ‘Performances’ parece continuar firme nas produções de Gadelha. O professor já tem o roteiro do próximo trabalho que se destina no campo das ‘Drags Queens’. Até lá, o público fica à espera do livro Cosmodrags: poética das transmaterialidades. Aguardem!

Mais detalhes da obra O sensível e o cruel: uma aprendizagem pelas performances sadomasoquistas – à venda no site da Editora Metanoia e da Livraria Cultura, por apenas R$ 35,00. Adquira!

Revisão: Janaina Gonçalves (Olhos de Lince)/ Agradecimento: Vinyle Café – Endereço, Rua:  Waldery Uchôa, 42 – Benfica, Fortaleza – CE.

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